Opinião | 22-06-2026 10:00

Discos velhos

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

Os objetos costumam envelhecer diante de nós sem disfarce. A madeira empena, o tecido perde a cor, o metal escurece. O desgaste se anuncia. Com o disco era diferente. Ele permanecia inteiro. Conservava a forma. Mantinha a aparência daquilo que sempre fora. No entanto, a música já não estava mais lá.

Encontrei uma vitrola antiga num canto da casa. Havia poeira sobre a tampa, um cheiro de madeira guardada e alguns discos empilhados ao lado, ligeiramente inclinados, como acontece com certos objetos que permanecem anos no mesmo lugar.

Peguei um deles.

A capa estava gasta nas bordas. O vermelho já não era exatamente vermelho. Os dedos de outras pessoas haviam passado por ali tantas vezes que parte da imagem desaparecera sem alarde, levada pelo uso e não por qualquer acontecimento digno de registro.

Coloquei o disco para tocar.

A agulha desceu, o prato começou a girar e, durante um instante, esperei a música. O que veio foi um ruído áspero, repetido, insistente, como se alguma coisa tentasse atravessar uma distância grande demais e acabasse retornando sempre ao mesmo ponto.

Fiquei observando.

O curioso era que nada parecia quebrado. A vitrola funcionava, o disco girava e a agulha seguia seu caminho com a mesma obediência de décadas atrás. Ainda assim, havia uma falha que não se mostrava à primeira vista. Tudo permanecia em seu lugar, mas aquilo que justificava o encontro entre aquelas peças já não respondia quando era chamado.

Talvez tenha sido isso que me fez continuar ali.

Os objetos costumam envelhecer diante de nós sem disfarce. A madeira empena, o tecido perde a cor, o metal escurece. O desgaste se anuncia. Com o disco era diferente. Ele permanecia inteiro. Conservava a forma. Mantinha a aparência daquilo que sempre fora. No entanto, a música já não estava mais lá.

Lembrei então de uma conversa que tive anos atrás com um colecionador de vinis. Ele me dizia que os discos mais tristes não eram os partidos ao meio. Os partidos ao meio resolviam o assunto rapidamente. Tristes eram os outros: os que continuavam parecendo discos, ocupando lugar na estante, prometendo uma música que já não conseguiam entregar.

Passei algum tempo segurando aquele vinil antes de devolvê-lo à estante.

Quando fechei a tampa da vitrola, percebi que o silêncio da sala era quase o mesmo de antes. O disco continuava inteiro. A capa continuava bonita. Quem entrasse ali não veria nada de errado.

Mas eu já sabia.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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