Opinião | 23-06-2026 10:15
O que se aprende com quatro senhoras à conversa no café
Bernardo Salgado Emídio
Com quatro senhoras à conversa no café aprende-se que envelhecer também é bom porque nos ensina a escolher melhor as guerras e a rir das pequenas desgraças.
As primeiras duas horas da manhã de trabalho (bem cedo) passo-as a escrever no café perto de casa, enquanto como uma sandes de queijo e bebo um sumo de laranja natural. Quem gosta de observar e tem os ouvidos bem abertos tira todos os dias um curso intensivo no café. Aprende-se sobre a vida, sobre as pessoas e sobre o país real. No meu caso tenho sorte, porque as três “moças” que estão atrás do balcão são um autêntico arraial em movimento. Têm conversa para toda a gente. Alguns clientes são tratados com respeitoso distanciamento, outros com palavras como “amor” e “querido”, e outros, os mais descarados, levam troco sempre que se esticam.
Confesso que saio sempre daquele café com pena que a redacção de O MIRANTE não tenha aquela animação permanente, embora reconheça que, para escrever sobre assuntos delicados, contar histórias e interagir com as pessoas que trabalham e lideram na nossa região, é preciso, muitas vezes, estar em silêncio.
Sento-me quase sempre na mesa ao lado de quatro senhoras na casa dos 70 e 80 anos. Chego primeiro do que elas e elas vão chegando à vez. Encontram-se todos os dias no café à mesma hora. Cumprimentam-se com dois beijos e tratam-se todas por você, com a delicadeza de outros tempos. São de uma geração em que a expressão “o respeitinho é muito bonito” fazia todo o sentido. Hoje, o respeitinho passou a ser uma regalia a que nem todos têm direito. Falam de tauromaquia e da Feira Nacional da Agricultura, falam dos preços e do custo de vida, falam dos filhos, dos netos, dos vizinhos e, sobretudo, falam do passado, porque o futuro já não é tão comprido. Têm consciência disso e parecem tranquilas em relação à finitude da vida.
Falam também dos maridos e das queixas que cada uma tem. A maioria diz que já não diz nada para não se arreliar. Isto é sabedoria. Quando sabemos ficar calados porque percebemos que não ganhamos nada em falar, só temos a ganhar. Há silêncios que revelam muita inteligência, sobretudo quando falamos de relações humanas. Falam também das dores no corpo. Dizem que lhes dói o corpo desde os 11 anos, quando começaram a trabalhar. “Já nem vale a pena queixarmo-nos”, afirmam.
O café é um ponto de encontro onde se vivem muitas vidas. Para quem gosta de escrever é como uma sala de aula onde todos os dias se aprende mais um bocadinho. Voltando ao título deste artigo: com quatro senhoras à conversa no café aprende-se que envelhecer também é bom porque nos ensina a escolher melhor as guerras e a rir das pequenas desgraças.
Bernardo Salgado Emídio
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