Opinião | 24-06-2026 21:00

“Mais portugueses a votar do que a ver jogos decisivos da selecção, e a vitalidade da arte do desenrasca, em tempos de novas tecnologias”

Emails do outro mundo

Campeão, Serafim das Neves

Campeão, Serafim das Neves
Houve mais eleitores a votar nas últimas eleições Presidenciais, do que espectadores a ver jogos decisivos da selecção nacional de futebol, realizados nos últimos anos. A diferença não foi muita, mas houve, para aí, mais uns setecentos mil portugueses a votar do que a gritar pelos futebolistas, em frente à televisão. Mesmo com os níveis de abstenção a subir, as eleições têm mais adeptos que o pontapé no esférico. É um facto!
Fala-se muito em medidas para aumentar o interesse dos portugueses pela política, mas, infelizmente, não se destina parte do Orçamento do Estado para mobilizar maior apoio dos cidadãos à selecção. Um desleixo enorme, digo eu. É verdade que ainda há mais adeptos a ver os jogos decisivos, do que abstencionistas nas eleições, mas convém não embandeirar em arco.
O futebol precisa de menos cachecóis da selecção à volta de pescoços de políticos, e de mais medidas concretas. Meter o Presidente da República à baliza, por exemplo, ou seleccionar o Primeiro-Ministro para jogar à defesa, nem que fosse apenas para estarem no banco de suplentes e darem uns toques no aquecimento, era uma boa ideia ou não era?! E acabem lá com essa coisa de chamar ao futebol desporto-rei. Desde 5 de Outubro de 1910 que temos uma República, caramba!!!
A arte do desenrasca, que tantos portugueses dominam com mais mestria do que o Ronaldo a dominar a bola, não corre perigo de extinção, apesar dos avanços tecnológicos. E ainda há dias me pude maravilhar com um dos muitos exemplos, neste caso, aplicado à programação informática.
Tendo-me sido comunicado o orçamento para a reparação de um electrodoméstico e tendo eu pago, na altura da entrega do mesmo, a quantia indicada, que era cerca de 100 euros (99,9 para ser mais preciso), fui recebendo, durante o tempo durou a reparação, mensagens SMS e e-mails, tão estapafúrdios, que os pus de parte, com a classificação de pirataria informática.
Um deles, enviado pelo sistema, seja lá que sistema for, e sem possibilidade de resposta, dizia que o orçamento para o arranjo ficaria em 575 euros, ou seja, duas vezes mais que o preço de um electrodoméstico novo.
Quando, na loja, na altura de levantar a máquina já arranjada, referi o que me tinha acontecido, olharam-me com benevolência e disseram-me para não ligar. O programa informático usado exigia que fosse colocada uma quantia qualquer naquele local, relativamente a algo que não existia. E se isso não fosse feito, não funcionava.
O desenrascanço e improviso nacionais rapidamente resolveram o problema. Em vez de corrigirem o programa, optaram por estimular a criatividade de cada funcionário. Dar-lhe liberdade de escolha. Se ele quisesse colocar 500 euros, colocava. Se quisesse colocar 700, podia fazê-lo. Se optasse por um milhão, era lá com ele. Não colocar nada é que não era opção, porque o programa bloqueava. Nem a Inteligência Artificial era capaz de melhor!
Não me explicaram porque é que aquilo é enviado aos clientes, mas deduzi que seja para eles se distraírem, enquanto aguardam pela conclusão das reparações, que até já estão pagas. E resulta! Pelo menos comigo, resultou. O que eu me diverti!!
Saudações de cruzinha esférica
Manuel Serra d’Aire

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