Opinião | 29-06-2026 10:50

A escada

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

As pessoas imaginam que crescer seja esquecer essas pequenas cerimônias da infância. Não é. Crescer é descobrir, muitos anos mais tarde, onde elas ficaram escondidas.

Há poucos dias percebi que a escada da minha casa mudou.

Olhei para ela e pensei que estava enganada. Os degraus eram os mesmos, o corrimão era o mesmo, a madeira não tinha sido trocada. Ainda assim, alguma coisa já não era igual.

Só então entendi.

Minha mãe deixou de subi-la.

É curioso como uma casa muda de tamanho sem derrubar uma parede. Durante muitos anos, aquele lance de escadas foi apenas um caminho entre o quarto e a cozinha. Subíamos e descíamos sem reparar nele, como quem atravessa um corredor ou abre uma porta. Um dia, porém, a mão demorou um pouco mais sobre o corrimão. Depois os passos ficaram mais lentos. Mais tarde, o andar de cima foi desaparecendo da rotina, sem anúncio, sem conversa, sem despedida. A casa aprendeu outro desenho antes de nós.

Na mesma semana sonhei que chamava pela minha mãe.

Não me lembro do perigo. Nos sonhos, quase nunca sabemos de quê fugimos. Lembro apenas que a chamava com a confiança antiga de quem acredita que uma mãe sempre encontra um jeito de chegar.

Acordei ainda dizendo seu nome.

Foi quando a escada voltou.

Não o sonho.

A escada.

Passei algum tempo parada diante dela, lembrando de uma coisa que eu não recordava havia muitos anos.

Todas as noites, antes de dormir, fazia o mesmo pedido.

— Mãe, fica olhando para mim até eu dormir.

Ela ficava.

Nunca perguntou por quê, e eu também nunca soube responder. Precisava apenas abrir os olhos uma última vez e encontrá-la acordada. Enquanto aquele olhar permanecesse ali, o mundo conservava a forma que eu conhecia.

Depois cresci.

As pessoas imaginam que crescer seja esquecer essas pequenas cerimônias da infância.

Não é.

Crescer é descobrir, muitos anos mais tarde, onde elas ficaram escondidas.

Naquela madrugada havia apenas uma escada entre nós.

Nunca me pareceu tão longa.

Embaixo dormia a mulher que um dia ficou acordada para que eu pudesse dormir.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias