Breaking Bad em Abrantes, o exemplo de Obélix e sardinhas à venda em ourivesarias
Bombástico Manuel Serra d’Aire
Bombástico Manuel Serra d’Aire
O parque de ciência e tecnologia Tagusvalley, em Abrantes, serviu durante algum tempo como laboratório para produção de anfetaminas e transformação de cocaína, destinada a exportação. A empresa era liderada por estrangeiros que decidiram apostar no nosso país, coisa que habitualmente muito extasia os nossos políticos. E a marosca acabou por ser detectada pelas autoridades em 2023, mas voltou recentemente à ordem do dia por ter sido deduzida acusação contra os empreendedores por tráfico de droga, associação criminosa, branqueamento de capitais e falsificação de documentos. Entre os acusados estão ainda alguns empresários nacionais ligados à produção, importação e exportação de canábis medicinal.
Confesso que nunca imaginei ver a pacata cidade de Abrantes transformada num cenário digno de Breaking Bad. É certo que o concelho já nos habituou a episódios peculiares: houve cajadadas em reuniões de câmara, burros amarrados à porta dos paços do concelho e empresários de longas barbas a jurar que a autarquia lhes arruinou a vida. Mas tudo isso pertence à categoria do folclore local, à pequena produção artesanal de escândalos.
Neste caso estamos perante outro campeonato. Um laboratório sofisticado instalado num parque de ciência e tecnologia para produzir drogas destinadas ao mercado internacional é um salto qualitativo assinalável. Comparar as velhas excentricidades abrantinas com esta operação é como comparar uma bicicleta sem mudanças com um Ferrari. Ou, se preferires uma referência televisiva, é passar do Duarte & Companhia para o Miami Vice.
Os javalis estão a dar cabo da cabeça aos autarcas da Câmara de Arruda dos Vinhos. Os animais passeiam-se por parques, jardins e passeios com um à-vontade que faria inveja a muitos munícipes, obrigando a autarquia e as associações de caçadores a organizar batidas para tentar controlar a sua crescente presença junto das zonas urbanas. Mas se há quem veja aqui uma ameaça, também há quem veja uma curiosidade e até quem esteja a vislumbrar o ingrediente principal de uma bela patuscada.
Durante milhares de anos, o javali não foi encarado como uma praga urbana, mas sim como um pitéu de luxo. Onde hoje vemos um problema de segurança pública, os nossos antepassados viam um ensopado, um guisado ou um assado digno de festa. Basta ter lido as histórias de Astérix e Obélix para ter noção da popularidade que o animal tinha entre os humanos. Talvez esteja na hora de lhes voltarmos a dar a devida atenção, armados de faca e garfo.
Não sei se já reparaste ao preço a que está a sardinha. Quando vi a etiqueta no supermercado pensei que alguém tinha trocado os preços e colocado os do camarão no lugar do mais popular peixe dos santos populares. Ao ritmo a que as coisas estão, qualquer dia passa a ser vendida em ourivesarias. Perante este cenário, o melhor investimento já não são os certificados de aforro nem o ouro. São as festas populares que distribuem sardinha à borla. É aproveitar enquanto dura, encher o bandulho sem remorsos e, se possível, levar discretamente uma marmita.
Saudações gastronómicas do
Serafim das Neves


