O Brasil no Boteco
Fui assistir ao jogo do Brasil num Boteco sem saber quase nada de futebol. Se me perguntassem a escalação, eu provavelmente responderia com segurança apenas o nome do artilheiro, e olhe lá.
Fui assistir ao jogo do Brasil num Boteco sem saber quase nada de futebol.
Se me perguntassem a escalação, eu provavelmente responderia com segurança apenas o nome do artilheiro, e olhe lá. Não sei explicar sistema tático, não sei distinguir certas faltas e ainda me espanto com a quantidade de pessoas que conseguem discutir impedimento com a seriedade de quem examina uma escritura pública. Mesmo assim, fui. Não porque entendesse do jogo, mas porque entendia da festa.
Há coisas que a gente compreende sem dominar o assunto.
Eu não precisava conhecer todos os jogadores para perceber o que acontecia ali: mesas cheias, camisas amarelas, copos levantados antes da hora, gente conversando com a televisão como se o técnico pudesse ouvir do outro lado do mundo.
Antes da partida, os jornais estrangeiros diziam que a Seleção Brasileira ainda precisava convencer. Li isso e achei curioso. No Boteco, ninguém parecia esperando ser convencido. As pessoas chegaram antes da bola. Algumas vestiam amarelo. Outras nem isso. Bastava a televisão ligada para que uma mesa inteira começasse a falar com outra.
No boteco, o Brasil ainda é uma espécie de parente difícil. A gente reclama dele, desconfia dele, jura que não se ilude mais, mas basta a bola rolar para todo mundo voltar a acreditar com aquela imprudência que só o futebol permite.
O Japão fez o jogo ficar difícil. Organizado, paciente, sem nenhuma intenção de participar da nossa festa. Quando saiu o gol deles, o boteco inteiro mudou de respiração. Houve um silêncio breve, desses que duram pouco, mas atravessam a mesa.
Depois vieram os comentários, os conselhos ao treinador, as previsões sombrias e aquela sabedoria coletiva que só aparece em dia de Copa. Cada pessoa ali sabia exatamente o que deveria ser feito, inclusive eu, que não sabia quase nada.
Quando o Brasil virou, o lugar inteiro levantou junto. A imprensa dirá que Ancelotti mexeu bem, que o Brasil reagiu, que venceu à moda dos times que não perdem a calma. Dirá também que ainda há problemas na defesa, que a Seleção precisa melhorar, que o caminho será mais difícil daqui para frente. Tudo isso talvez esteja certo. Mas no Boteco havia outra notícia.
Por alguns minutos, pessoas desconhecidas torceram como se pertencessem à mesma casa. Gente que talvez discordasse sobre quase tudo estava ali, unida por uma bola, um susto e dois gols.
Saí sem saber muito mais sobre futebol do que sabia quando entrei.
Descobri que eu não estava ali para entender o futebol. Estava ali para entender o Brasil.
Crónica publicada originalmente no pornal online Check Up
* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.


