A moto obriga-nos a desligar do mundo
Hoje em dia tudo disputa a nossa atenção. As aplicações foram desenhadas para nos prender. Os algoritmos sabem mais sobre nós que muitos amigos (:) A moto faz exatamente o contrário. Obriga-nos a olhar para a curva seguinte, para o estado do piso, para a distância de segurança, para o som do motor, para a chuva que se aproxima.
A moto obriga-nos a desligar do mundo, e talvez seja exatamente isso de que precisamos
Uma reflexão mais séria, desta vez. Já repararam que, de repente, toda a gente tem medo do tempo “morto”, parece que ninguém sabe lidar com ele? Esperamos pelo elevador a olhar para o telemóvel. Esperamos numa fila a responder a mensagens. Esperamos cinco minutos por alguém e sentimos necessidade de abrir uma aplicação qualquer. Vemos TV e estamos ao telemóvel ao mesmo tempo. Quantas pessoas vemos em jantares com o telemóvel a preencher …algo. O silêncio tornou-se desconfortável, e o vazio passou a ser um problema que precisa de ser preenchido.
Nas pausas não pensamos, não descansamos, não relaxamos, não desligamos. Ficamos ainda mais cansados.
Depois pensei na moto e no que sentimos em cima dela (para quem a vive). Quando estamos na estrada, não há notificações para responder, vídeos para ver ou feeds para percorrer. Há apenas a estrada, o motor, o vento e o tempo.
É uma pausa pura. Um pouco como o desporto. Quantas pessoas dizem que precisam daquela hora para desligar? Que faz bem à mente.
Quantas vezes eu saí de moto, sem destino, para espairecer. Para pensar. Para relaxar. Para pensar em voz alta. Durante algumas horas, somos obrigados a estar apenas onde estamos, sem mais nada e muitas vezes sem ninguém. Parece pouco, mas tornou-se raro atualmente.
Hoje em dia tudo disputa a nossa atenção. As aplicações foram desenhadas para nos prender. Os algoritmos sabem mais sobre nós que muitos amigos. Há sempre mais um vídeo, mais uma notícia, mais uma mensagem.
A moto faz exatamente o contrário. Obriga-nos a olhar para a curva seguinte, para o estado do piso, para a distância de segurança, para o som do motor, para a chuva que se aproxima.
Obriga-nos a estar presentes. Talvez seja por isso que tantas pessoas dizem que conduzir as ajuda a "desligar". Na verdade, não desligamos de tudo, desligamos apenas do excesso.
Isto é cada vez mais valioso. Procuramos silêncio, não o silêncio sonoro, mas o mental.
Talvez a moto seja um dos últimos lugares onde ainda conseguimos estar sozinhos com os nossos pensamentos sem sentir que estamos a perder tempo.
E isto é, no mínimo, irónico. Passamos a vida a procurar formas de descansar a mente através de aplicações de meditação, retiros digitais ou fins de semana sem telemóvel. E, afinal, basta ligar o motor.
Talvez o maior luxo dos nossos dias já não seja ter mais tempo, mas conseguir, por algumas horas, recuperar a atenção que deixámos o mundo roubar.
Boas curvas
Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Junho de 2026


