As noites espessas
Experimentei a jaqueta e tirei. Vesti o casaco antigo e o devolvi ao lugar. A roupa caía bem. O pano era bom. Nada apertava os ombros, nada sobrava nas mangas. Ainda assim, não servia. Era estranho uma roupa caber no corpo e não servir para a noite.
É sempre muito confuso quando se está com frio e não existe um agasalho que sirva.
No fim de semana, parei diante do armário por mais tempo do que a temperatura pedia. Havia um casaco de lã que quase nunca uso, uma jaqueta comprada numa viagem, uma blusa mais grossa já marcada nos punhos e outra peça que continua nova demais para merecer confiança. Passei a mão pelos cabides, fui de um tecido a outro, e nenhum parecia destinado àquela noite. Não era falta de roupa. O armário aberto provava justamente o contrário.
A janela do oitavo andar estava aberta. O vento entrava sem muita força, um vento desses de Fortaleza, suficiente para alguém dizer que fez frio, embora qualquer cidade habituada ao inverno risse disso. Fechar a janela resolveria uma parte. A outra continuava ali, entre o forro de um casaco e a minha mão parada no cabide.
Experimentei a jaqueta e tirei. Vesti o casaco antigo e o devolvi ao lugar. A roupa caía bem. O pano era bom. Nada apertava os ombros, nada sobrava nas mangas. Ainda assim, não servia. Era estranho uma roupa caber no corpo e não servir para a noite.
Fechei o armário e fui até a sala. Nos apartamentos em frente, uma mulher recolhia toalhas da varanda, alguém apagava a luz da cozinha, uma televisão coloria uma parede vazia. A cidade continuava seu serviço miúdo de existir. Voltei ao quarto porque há horas em que a gente insiste nos móveis, nas gavetas e nas portas, como se alguma coisa da casa pudesse responder.
Abri também uma gaveta de baixo, onde guardo lenços que quase nunca uso. Um deles ainda tinha cheiro de armário fechado. Outro trazia uma etiqueta antiga, dessas que ficam presas à roupa por esquecimento ou desistência. Segurei um lenço por alguns segundos, dobrei de novo, guardei no mesmo lugar. Havia coisas ali que tinham sido compradas para viagens, para salas geladas, para noites que nunca chegaram.
Os casacos continuavam no mesmo lugar. Toquei outra vez a lã, os botões, os punhos gastos. Havia ali roupas para vento, para chuva fina, para viagem, para sala gelada de ar-condicionado. Nenhuma tinha sido feita para uma conversa atravessada, para um silêncio que muda o ar da casa, para certas presenças que deixam no corpo uma espécie de sereno.
Fiquei diante do armário até perder o interesse pela escolha. Depois apaguei a luz, deixando a janela como estava, porque já não era a janela que decidia a temperatura.
As noites estão espessas.
Ninguém costura para isso.
* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.


