Opinião | 08-07-2026 21:00

“Moças gentis, nuazinhas, de cabelos compridos e vergonhas altas cerradinhas, e sem pelo”

Emails do outro mundo

Estrénue, Serafim das Neves

Estrénue, Serafim das Neves
Ainda se produz mais milho no Ribatejo do que cannabis, ou liamba, como alguns lhe chamam, mas a produção desta ervinha tem vindo a crescer a olhos vistos. E isto, apesar da proibição e das acções policiais, como a que levou ao encerramento, no ano passado, de um plantação localizada numa antiga panificadora de Alcanhões.
A iniciativa empresarial neste segmento do sector agrícola, digamos assim, é admirável. E sem apoios da União Europeia, como os que recebem os produtores de milho. A reconversão da panificadora para estufa seria elogiada se em vez de liamba fossem produzidos mirtilos, mas os tempos mudaram e a legislação também.
A cannabis já era usada pelo povo, no século III antes de Cristo. Alguns contemporâneos de Jesus, e mesmo o Mestre, poderiam ter fumado um charro, se lhes desse para aí, sem qualquer problema, uma vez que não era proibido. E o mesmo poderia ter acontecido com reis, como o famoso Herodes, ou com príncipes, cavaleiros, bobos da corte, marinheiros e navegadores encartados.
Não há registo que permita concluir que Gil Eanes dobrou o cabo Bojador sob o efeito da liamba, ou do ópio; ou que o cozinheiro de Afonso Henriques tenha misturado a planta no guisado de javali com castanhas, antes da conquista de Santarém aos Mouros, mas se o tivesse feito, não iria preso.
A proibição da liamba só surgiu no século XX, por influência, não de médicos mas de industriais. Na década de 1930, a fibra do cânhamo, variedade industrial da cannabis, era uma matéria-prima barata e versátil e os magnatas da indústria de papel e celulose, bem como os produtores de nylon e fibras sintéticas viam-na como uma concorrência directa e ameaçadora.
E o mesmo aconteceu depois com a ascensão dos combustíveis fósseis e dos plásticos derivados do petróleo. Ainda por cima, o fumo daquilo dava umas ideias perigosas a quem o aspirava. Era preciso abater a liamba e… pimba!! A partir de 1961, logo na altura em que começou a guerra colonial nas nossas colónias de África, e alguns dos jovens soldados começaram a enrolar uns charros, a cannabis, passou a ser proibida, em todo o lado.
Chaparrou-se muito e cada vez mais, desde então, mas já não era à vontadinha como na altura da batalha de Alcácer-Quibir, por exemplo, ou no tempo da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, quando Pêro Vaz de Caminha, o escrivão da armada, escreveu ao rei a famosa Carta do Achamento, onde menciona que os homens e mulheres que tinham encontrado andavam todos nus.
A Carta do Achamento, com data de 1 de Maio de 1500, sexta-feira, nunca chegou a D. Manuel I. E andou desaparecida até 1773, mas não foi por culpa dos CTT que ainda não existiam. No entanto, pode ser lida por quem quiser. É uma carta… toda aberta, digo eu, sem malícia.
O MIRANTE apoiou uma edição da mesma, o que se compreende porque aquilo lê-se como uma reportagem. “(…) moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras”. O meu exemplar já está na mala com as coisas para as férias. Vou voltar a ler, reler e tresler… mesmo sem cannabis medicinal… nem da outra.
Um abraço esfumaçado
Manuel Serra d’Aire

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