“Moças gentis, nuazinhas, de cabelos compridos e vergonhas altas cerradinhas, e sem pelo”
Estrénue, Serafim das Neves
Estrénue, Serafim das Neves
Ainda se produz mais milho no Ribatejo do que cannabis, ou liamba, como alguns lhe chamam, mas a produção desta ervinha tem vindo a crescer a olhos vistos. E isto, apesar da proibição e das acções policiais, como a que levou ao encerramento, no ano passado, de um plantação localizada numa antiga panificadora de Alcanhões.
A iniciativa empresarial neste segmento do sector agrícola, digamos assim, é admirável. E sem apoios da União Europeia, como os que recebem os produtores de milho. A reconversão da panificadora para estufa seria elogiada se em vez de liamba fossem produzidos mirtilos, mas os tempos mudaram e a legislação também.
A cannabis já era usada pelo povo, no século III antes de Cristo. Alguns contemporâneos de Jesus, e mesmo o Mestre, poderiam ter fumado um charro, se lhes desse para aí, sem qualquer problema, uma vez que não era proibido. E o mesmo poderia ter acontecido com reis, como o famoso Herodes, ou com príncipes, cavaleiros, bobos da corte, marinheiros e navegadores encartados.
Não há registo que permita concluir que Gil Eanes dobrou o cabo Bojador sob o efeito da liamba, ou do ópio; ou que o cozinheiro de Afonso Henriques tenha misturado a planta no guisado de javali com castanhas, antes da conquista de Santarém aos Mouros, mas se o tivesse feito, não iria preso.
A proibição da liamba só surgiu no século XX, por influência, não de médicos mas de industriais. Na década de 1930, a fibra do cânhamo, variedade industrial da cannabis, era uma matéria-prima barata e versátil e os magnatas da indústria de papel e celulose, bem como os produtores de nylon e fibras sintéticas viam-na como uma concorrência directa e ameaçadora.
E o mesmo aconteceu depois com a ascensão dos combustíveis fósseis e dos plásticos derivados do petróleo. Ainda por cima, o fumo daquilo dava umas ideias perigosas a quem o aspirava. Era preciso abater a liamba e… pimba!! A partir de 1961, logo na altura em que começou a guerra colonial nas nossas colónias de África, e alguns dos jovens soldados começaram a enrolar uns charros, a cannabis, passou a ser proibida, em todo o lado.
Chaparrou-se muito e cada vez mais, desde então, mas já não era à vontadinha como na altura da batalha de Alcácer-Quibir, por exemplo, ou no tempo da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, quando Pêro Vaz de Caminha, o escrivão da armada, escreveu ao rei a famosa Carta do Achamento, onde menciona que os homens e mulheres que tinham encontrado andavam todos nus.
A Carta do Achamento, com data de 1 de Maio de 1500, sexta-feira, nunca chegou a D. Manuel I. E andou desaparecida até 1773, mas não foi por culpa dos CTT que ainda não existiam. No entanto, pode ser lida por quem quiser. É uma carta… toda aberta, digo eu, sem malícia.
O MIRANTE apoiou uma edição da mesma, o que se compreende porque aquilo lê-se como uma reportagem. “(…) moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras”. O meu exemplar já está na mala com as coisas para as férias. Vou voltar a ler, reler e tresler… mesmo sem cannabis medicinal… nem da outra.
Um abraço esfumaçado
Manuel Serra d’Aire


