A menina que cantava o eclipse
Quando soube da morte de Bonnie Tyler, encontrei novamente aquela menina. Ela ainda esperava o refrão com a mesma impaciência, sem suspeitar que um dia saberia o que uma resposta atrasada pode fazer com uma noite e quanto espaço uma ausência consegue ocupar.
Bonnie Tyler morreu esta semana. Li a notícia na internet e, antes de procurar os detalhes de sua morte, fui atrás da música.
Nem precisei ouvi-la para saber como começava. Meu corpo inteiro ainda se lembrava do momento em que a voz crescia, do lugar exato em que a bateria entrava e daquela espécie de desabamento que o refrão provocava dentro da sala. A memória perde nomes, ruas e aniversários sem a menor cerimônia, mas conserva por décadas o segundo preciso em que uma cantora rouca vai esticar uma palavra como se alguma coisa grave dependesse daquilo.
Na minha adolescência, Total Eclipse of the Heart tocava nas festas, no rádio e nas fitas gravadas que começavam com uma música pela metade porque ninguém acertava o instante de apertar o rec. Quando ela surgia, alguma conversa era interrompida e alguém aumentava o volume.
Cantávamos um inglês de ouvido, construído com pouca gramática e uma convicção absurda. Não sabíamos exatamente o que dizíamos, mas reconhecíamos o momento de levantar a voz. A pronúncia podia estar errada; o sofrimento, aparentemente, estava correto. E dançávamos.
Eu estava ao lado do namoradinho daquela época, desses namoros antigos que, apesar do diminutivo, duravam cinco anos. Era assim: a gente dizia “namoradinho” e atravessava uma adolescência quase inteira ao lado dele. Mesmo assim, a memória conservou melhor a voz de Bonnie Tyler do que os rostos das pessoas que dividiram comigo aquelas festinhas.
Talvez houvesse luz baixa, embora exista a possibilidade de que ela tenha sido acrescentada depois, porque a memória, quando envelhece, adquire certos hábitos de diretora de cinema.
Lembro, porém, que nenhuma de nós parecia estranhar o desespero daquela mulher. A canção falava de uma mulher cansada, assustada e à espera de que outra pessoa voltasse para devolver alguma claridade ao mundo. Não examinávamos nada disso. A dor vinha acompanhada de piano, bateria e uma voz rouca; portanto, servia perfeitamente para dançar.
Naquele tempo, o coração eclipsado parecia apenas uma imagem bonita dentro de uma música enorme. Não perguntávamos por que a luz de uma vida inteira dependia da permanência de alguém. Ninguém interrompia o refrão para discutir os riscos de entregar a uma única pessoa a administração do sol. Éramos meninas preocupadas em acertar a música.
Anos depois, a canção mudou sem que nenhuma nota fosse alterada. Foram as nossas vidas que chegaram diferentes até ela.
Uma ausência pode aprender rapidamente os hábitos de uma casa. A pessoa vai embora, mas continua escolhendo a cadeira em que ninguém se senta, o lado da cama que permanece intacto e a hora em que alguém olha para o telefone. Há quem passe meses vivendo dentro de uma resposta que não veio, mantendo a noite disponível para uma porta que talvez já não se abra.
Nada disso estava ao alcance da menina que cantava. Ela conhecia a demora de uma tarde, o constrangimento de uma festa e talvez alguma paixão guardada com o exagero próprio da idade. Ainda não sabia que alguém pode permanecer dentro de uma casa muito depois de retirar todas as suas coisas.
Escuto hoje a mulher da canção e reconheço uma vida reduzida ao movimento de uma porta. Se o outro voltar, haverá futuro; enquanto ele não volta, a noite parece não terminar. Naquela idade, esse excesso nos parecia grandioso. Fora da música, descobriríamos mais tarde, ele viria sem piano, sem bateria e, muitas vezes, sem resposta.
Certas canções entram cedo demais em nossa vida. Nós as cantamos antes de alcançar o que dizem e seguimos adiante, enquanto elas permanecem no mesmo lugar, aguardando que o tempo nos forneça o restante da letra.
Quando soube da morte de Bonnie Tyler, encontrei novamente aquela menina. Ela ainda esperava o refrão com a mesma impaciência, sem suspeitar que um dia saberia o que uma resposta atrasada pode fazer com uma noite e quanto espaço uma ausência consegue ocupar.
Não senti vontade de adverti-la. Seria inútil e, sobretudo, indelicado: ela estava dançando, e naquele tempo o refrão bastava.
Deixei a música chegar ao fim. O telefone ofereceu outra imediatamente, com a diligência das máquinas que não compreendem a importância do silêncio. Não aceitei. Coloquei o aparelho sobre a mesa e fiquei ali por alguns instantes.
A voz havia parado, porém o meu corpo ainda sabia onde a bateria entrava.
* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.


