Moro num país tropical, com fetiche por fardas e que continua a brincar com o fogo
Impávido e sereno Manuel Serra d’Aire
Impávido e sereno Manuel Serra d’Aire
Passamos por dias de canícula que me convenceram, definitivamente, da inutilidade de continuar a procurar destinos tropicais para passar férias e tostar o couro a troco de umas centenas ou milhares de euros e incómodas viagens de avião. Quem precisa de Seychelles, Caraíbas ou Cabo Verde quando há um Ribatejo tropical à mão de semear? Temos calor tórrido e areais extensos no Tejo de fazer inveja a muitos paraísos longínquos; temos vegetação desregrada, bicharada com fartura e alguns acessos por caminhos de cabras que dão aquele toque pitoresco de terceiro-mundismo, tão do agrado de quem gosta do turismo-aventura.
Nas Caraíbas pagam-se fortunas por um bungalow sobre a água, enquanto por cá consegue-se uma sombra debaixo de um salgueiro e uma vista privilegiada para uma mota de água ou para um pescador à procura da sorte grande. É uma experiência muito mais autêntica. Em vez de coloridos cocktails servidos com palhinha, temos minis fresquinhas no café ou na geleira, que além de custarem uma bagatela ainda é provável que venham acompanhadas de conversa gratuita sobre o tempo, política ou futebol.
Há ainda outra vantagem que não é de desprezar, pois evitam-se burocracias com passaportes, alfândegas, filas intermináveis nos aeroportos, transfers, malas e malinhas. Por isso, proponho que as entidades do turismo deixem de vender o Ribatejo apenas pelo cavalo, pelo touro e pela gastronomia e coloquem a região também no mapa das estâncias balneares nacionais e internacionais, com a vantagem de não ter as nortadas e humidades atlânticas que muitas vezes põem os banhistas a bater o dente em pleno Verão. Se o clima continuar a colaborar, um dia seremos concorrência séria às Caraíbas e às ilhas do Pacífico, com salgueiros em vez de palmeiras, siluros em vez de tubarões e minis em vez de água de coco.
Os nossos antepassados mais remotos tinham no fogo um precioso aliado para manter as feras à distância e assim evitar que o caçador se transformasse em caça. Actualmente, o fogo pode continuar a afugentar animais, mas tem, paradoxalmente, cada vez mais capacidade para atrair as câmaras de televisão e respectivas equipas de reportagem e mantê-las a ruminar horas a fio, a filmar fumo e labaredas à distância, enquanto se entrevistam populares a dizer que é uma vergonha, que ali há mão criminosa, que os bombeiros não chegam para as encomendas e outros comentários mais ou menos inflamados.
Tal como não consigo compreender as aceleradas reportagens em directo, como repórteres de mota a seguir autocarros de equipas de futebol, também não consigo discernir qual o interesse noticioso dessa fixação por fumo e chamas em praticamente todos os canais, ao ponto de me deixarem com saudades dos arrazoados dos comentadores de bola e de guerra. O imperador Nero não ficou sozinho na inflamada paixão que o consumia. O fetiche por chamas, fardas e mangueiras a jorrar água é um caso que merece realmente estudo.
Um caloroso abraço do
Serafim das Neves


