Como se ninguém fosse envelhecer
Chega um momento em que o idoso deixa de ser a pessoa com quem se conversa e passa a ser a pessoa sobre quem os outros conversam. A mudança quase nunca é anunciada. Um médico dirige a pergunta ao acompanhante. O atendente entrega o documento ao filho. A família combina o que será feito antes de perguntar. Alguém responde no lugar da pessoa porque esperar alguns segundos parece tempo demais.
O Brasil aprendeu a prolongar a vida mais rapidamente do que aprendeu a construir um presente habitável para quem envelhece.
Pensei nisso num fim de tarde à beira-mar, quando saí com a querida amiga, escritora e artista plástica Ana Miranda e o nosso pequeno grupo para ver o pôr do sol. Entre uma conversa e outra, falamos sobre a velhice no Brasil. Ana lembrou uma crônica que escrevera sobre as chamadas zonas azuis, lugares estudados pela longevidade de seus habitantes e pelas condições de vida que parecem favorecer um envelhecimento com mais saúde, participação e vínculo com a comunidade.
Enquanto o sol descia sobre a Beira-Mar, pensei nos meus pais. Nas consultas, nas autorizações, nos serviços que não respondem e no esforço cotidiano para que continuem participando das decisões sobre a própria vida. Falávamos de lugares onde envelhecer encontrava alguma sustentação. Eu pensava no quanto o Brasil ainda celebra a longevidade sem preparar o mundo para aqueles que efetivamente envelhecem.
Meu pai está prestes a completar noventa anos. Continua lúcido, acompanha o que acontece ao redor, deseja compreender os exames e participar das decisões, embora já enfrente dificuldades para se locomover. Minha mãe tem setenta e seis anos, vive um processo de demência e precisa de ajuda para se deslocar e realizar parte das tarefas cotidianas. Envelhecem lado a lado, mas habitam experiências muito diferentes do tempo, do corpo e das relações.
Contei a Ana das consultas, dos encaminhamentos e das promessas de retorno que raramente se cumprem. Das providências que só avançam depois de muita insistência. Contei também algo que conheço como psicóloga e como filha: chega um momento em que o idoso deixa de ser a pessoa com quem se conversa e passa a ser a pessoa sobre quem os outros conversam.
A mudança quase nunca é anunciada. Um médico dirige a pergunta ao acompanhante. O atendente entrega o documento ao filho. A família combina o que será feito antes de perguntar. Alguém responde no lugar da pessoa porque esperar alguns segundos parece tempo demais.
Aos poucos, ela continua presente, mas sua palavra deixa de organizar a situação.
Meu pai não deixou de compreender porque caminha mais devagar. Ainda quer saber onde guardar o dinheiro, escolher um tratamento, acompanhar as notícias, discutir política, discordar de uma orientação e mudar de ideia. A lentidão do corpo não o tornou menos capaz de ocupar o próprio presente.
Com minha mãe, a experiência é outra. As lembranças já não se organizam como antes e o tempo, às vezes, parece chegar até ela por caminhos que não conhecemos. Mesmo assim, há coisas que continuam nítidas: o desconforto diante de uma voz ríspida, o alívio de uma mão conhecida, o medo quando não compreende onde está, o prazer de uma música, a vontade de não ser apressada.
Nem toda ausência de palavras é ausência de experiência.
Há dias em que a dificuldade parece pertencer inteira a eles. Meu pai demora. Minha mãe repete. Um não acompanha o passo; a outra não acompanha a explicação. Mas basta entrar num consultório estreito, encontrar uma porta pesada ou ouvir alguém falar depressa demais para perceber que parte da limitação também está do lado de fora.
Uma escada pode ampliar uma fragilidade. Um corrimão pode devolver alguma autonomia. Uma pergunta feita sem pressa pode permitir que alguém continue participando da própria vida.
O envelhecimento da população já se tornou visível dentro das famílias brasileiras. Os anos acrescentados à vida, porém, encontram cidades, serviços e rotinas ainda organizados para corpos rápidos, memórias intactas e pessoas que consigam resolver tudo sozinhas.
O mercado aprendeu a falar de longevidade com mais entusiasmo. A velhice anunciada é ativa, produtiva, viajante e discreta em suas necessidades. Consome suplementos, procedimentos e promessas de juventude prolongada. Quando alguém já não consegue subir uma escada, administrar os remédios ou compreender uma explicação apressada, a celebração perde parte do brilho.
Cuidar de meus pais tem me colocado diante dessa distância entre a vida que se alonga e o mundo que se estreita.
O cuidado envolve consultas, medicamentos, deslocamentos, burocracias e decisões que não admitem muita distração. Existe também um trabalho menos visível: reconhecer os limites sem transformar a pessoa inteira em limitação. Ajudar sem ocupar todo o lugar de quem é ajudado. Proteger sem decidir tudo antes que o outro possa dizer alguma coisa.
Nem sempre consigo distinguir uma coisa da outra.
Há momentos em que decidir por alguém se torna necessário. Em outros, a pressa se disfarça de cuidado. A conveniência toma a palavra. O medo de que algo aconteça produz uma vigilância que, pouco a pouco, retira da pessoa aquilo que ainda lhe pertence.
Entre proteger e apagar existe uma fronteira delicada, revista todos os dias.
Naquela tarde, diante do mar, compreendi que não basta acrescentar anos à vida. É preciso que um homem de noventa anos ainda seja consultado antes que decidam por ele. Que uma mulher com demência continue sendo tratada como alguém diante de nós, e não como uma ausência antecipada.
Quando nos levantamos para ir embora, o sol já havia desaparecido. A avenida seguia iluminada, os carros passavam depressa e as pessoas caminhavam pela calçada em ritmos diferentes.
Mais adiante, um casal de idosos avançava devagar, de braços dados.
Por alguns instantes, não achei que fossem eles que caminhavam lentamente.
A cidade é que parecia ter pressa demais.
* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.


