A Floresta Pinterest
A gestão da floresta portuguesa é gerida com políticas para um país que já não existe.
Nas décadas de 60 e 70, Portugal ainda era um país agrícola. A limpeza da floresta não era uma política pública; era uma consequência da economia rural. Os matos tinham valor. A lenha tinha valor. As ovelhas e as cabras limpavam o terreno e o que sobrava aquecia a sopa. Os tempos mudaram mas as políticas para a gestão do país não acompanharam a evolução.
Este texto foi inspirado em trabalho no terreno conversando com autarcas, bombeiros, população e outras entidades. Ainda vamos a meio de um trabalho de investigação e reportagem sobre os problemas na floresta portuguesa e a problemática dos grandes fogos que causam vítimas mortais, destroem a biodiversidade e acabam com o país tal como sempre o conhecemos. De certa forma tudo o que publicamos, e temos para publicar, já admite que retiremos algumas conclusões. O leitor que julgue e, se quiser participar, que nos escreva, não sem antes ler tudo o que já publicamos ao longo dos últimos tempos.
Hoje, qualquer plano para a floresta portuguesa parece um post do Pinterest.
Zonas de descontinuidade. Bosques autóctones. Ribeiras recuperadas. Mosaicos de biodiversidade. Caminhos limpos. Pastagens estratégicas. Tudo impecavelmente desenhado. Tudo harmonioso. Tudo certo.
O problema é que o Pinterest nunca teve de limpar um hectare de mato em agosto.
Outros o faziam.
Nas décadas de 60 e 70, Portugal ainda era um país agrícola. A limpeza da floresta não era uma política pública; era uma consequência da economia rural. Os matos tinham valor. A lenha tinha valor. As ovelhas e as cabras limpavam o terreno e o que sobrava aquecia a sopa.
Os agricultores percorriam diariamente as suas propriedades. A floresta fazia parte da exploração agrícola. Não existia "gestão de combustível". Existia utilização.
Mas os tempos estavam a mudar.
Qualquer agricultor com meio hectare de terra pobre fez aquilo que qualquer economista recomendaria: escolheu a cultura que lhe dava maior rendimento com menor necessidade de trabalho. Não tinha formação florestal, não foi especialmente aconselhado e, na maioria dos casos, também não foi enganado. Tomou uma decisão racional.
O problema é que centenas de milhares de portugueses tomaram exatamente a mesma decisão.
E ninguém pensou na paisagem que resultaria da soma dessas decisões individuais.
Depois veio 1986.
A entrada na Comunidade Económica Europeia acelerou uma transformação que já estava em curso. Os filhos partiram para as cidades. Os pais envelheceram. A agricultura deixou de ser o centro da economia rural. Os campos começaram a abandonar-se e as máquinas substituíram milhares de braços.
Aquilo que antes era trabalho da família passou a ser um serviço comprado.
E tudo mudou.
Porque limpar deixou de ser trabalho. Passou a ser despesa.
Quarenta anos depois, continuamos a desenhar políticas para um país que já não existe.
As leis continuam a pressupor que existe um proprietário disponível para cuidar da sua floresta.
Mas o proprietário de hoje é, muitas vezes, um professor em Lisboa, uma enfermeira em Braga ou um emigrante em França. São três irmãos que herdaram meio hectare de terreno, não conhecem os limites da propriedade, não conhecem os vizinhos e, por vezes, nem sabem exatamente onde fica a parcela.
E, no entanto, continuamos a fazer depender uma parte significativa da política florestal da iniciativa individual desses proprietários.
É verdade que surgiram ideias novas e importantes. Biodiversidade. Serviços dos ecossistemas. Corredores ecológicos. Recuperação das linhas de água. Gestão da paisagem. Tudo isso faz sentido.
O problema é que nenhuma dessas ideias elimina a realidade económica.
Os custos de viver na cidade absorvem os rendimentos das famílias. Quem herda uma pequena parcela de floresta dificilmente consegue justificar viagens, limpezas, maquinaria e manutenção de um terreno que, muitas vezes, gera um rendimento inferior ao custo da sua gestão.
Os poucos que ainda tentam viver da floresta encontram uma realidade pouco favorável.
O proprietário recebe pouco.
A indústria procura matéria-prima competitiva.
O Estado subsidia limpezas.
As câmaras municipais limpam faixas de gestão de combustível.
A Proteção Civil combate os incêndios.
Todos intervêm.
Mas quase ninguém consegue viver da floresta.
E nenhum setor económico sobrevive durante décadas sem rentabilidade.
Talvez por isso o verdadeiro problema da floresta portuguesa já não seja um problema florestal.
É um problema demográfico.
É um problema económico.
É um problema de organização do território.
Portugal continua a gerir a floresta como se fosse uma extensão da agricultura familiar.
Mas talvez devesse começar a geri-la como uma infraestrutura nacional, tão importante como uma barragem, uma autoestrada ou uma rede elétrica.
Porque a floresta presta serviços públicos.
Protege a água.Conserva os solos.Captura carbono.
Reduz a erosão.Protege a biodiversidade.Diminui o risco de cheias.
Se presta serviços públicos, então parte da sua gestão também deve ser assumida como um serviço público.
Afinal, alguém exige que o Parque Nacional da Peneda-Gerês apresente lucros?
Uma floresta não vive de decretos.Nem de multas.
Vive de economia.Vive de pessoas.Vive de décadas.
Continuamos a desenhar a floresta que gostaríamos de fotografar, quando talvez devêssemos começar por desenhar a floresta que o país é realmente capaz de gerir.
O modelo que o Estado continua a promover parte, muitas vezes, de um pressuposto silencioso e profundamente errado: que ainda existe um milhão de proprietários disponíveis, de serrote e enxada na mão, para cuidar da floresta portuguesa.
Mas esse país desapareceu há muito tempo.
E, infelizmente, nem no mundo perfeito do Pinterest ele continua a existir.
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


