A cerejeira da minha infância
Na minha infância havia uma cerejeira. Posso guardar a minha cerejeira sem precisar de guardar para sempre a terra onde ela cresceu. Posso guardar a fotografia, a história, o cheiro da terra depois da chuva, a lembrança dos domingos e das mãos dos meus avós. A memória não precisa de escritura. E talvez seja isto que falte dizer aos herdeiros dos nossos minifúndios: vender ou arrendar a terranão é vender a infância e as memórias ao diabo.
Desde que me lembro, sempre esteve lá. Não me recordo se a achava especialmente bonita. Naquele tempo, para mim, era simplesmente enorme. Era a árvore que estava ali, no meio da terra, e que fazia parte daquele mapa secreto da infância onde cada árvore, cada muro e cada caminho tinham um significado especial.
Hoje, quando penso nela, já não sei sequer se ainda existe. Talvez tenha envelhecido, talvez tenha sido cortada, talvez tenha ardido num dos incêndios que entretanto mudaram tantas paisagens. Mas, na minha memória, continua lá, grande, vistosa e com cerejas deliciosas.
Talvez seja assim com muitas das terras que hoje compõem a floresta portuguesa. Há por esse país fora, milhares de portugueses que por certo também têm a sua cerejeira. Pode ter sido uma cerejeira, um sobreiro, um carvalho, uma figueira ou simplesmente uma árvore junto à qual brincaram em criança. Pode ser a casa dos avós, o caminho para o poço, o lugar onde se
comiam figos no verão.
E essa memória ficou agarrada à terra.
Entretanto, os meninos/meninas cresceram. Foram para a cidade, emigraram, construíram outras vidas. Os avós morreram. Os pais morreram. A terra foi sendo dividida entre filhos, netos e bisnetos. E hoje há parcelas que têm mais herdeiros do que árvores.
Muitos não sabem exactamente onde fica o terreno. Alguns talvez nem lá ponham os pés há décadas. Mas, se alguém pergunta se querem vender, alugar,doar a resposta é frequentemente simples:
— Não. É da família.
E assim vamos acumulando uma floresta que, em muitos lugares, parece ter sido deixada em testamento ao mato.
É fácil compreender o sentimento. Para os nossos pais e avós, comprar terra foi muitas vezes uma conquista. Era segurança, riqueza, independência. Vender aquilo que se tinha conseguido comprar com tanto sacrifício pode parecer uma espécie de traição à família.
Mas há uma ironia nesta história.
A terra que um dia foi símbolo de riqueza pode hoje estar a transformar-se num custo. Não produz, não é limpa, não é gerida e, quando o fogo chega, arde para todos. Talvez seja preciso separar duas coisas que confundimos demasiado: a memória e a propriedade.
Eu posso guardar a minha cerejeira sem precisar de guardar para sempre a terra onde ela cresceu.
Posso guardar a fotografia, a história, o cheiro da terra depois da chuva, a lembrança dos domingos e das mãos dos meus avós. A memória não precisa de escritura. E talvez seja isto que falte dizer aos herdeiros dos nossos minifúndios: vender ou arrendar a terra não é vender a infância e as memórias ao diabo.
O avô não comprou aquele pedaço de chão para que um dia fosse apenas uma parcela abandonada entre muitas outras.Comprou-o porque, no seu tempo, a terra era uma forma de construir futuro. Talvez seja chegada a altura de os netos fazerem exactamente o mesmo.
Desta vez, para construir outro futuro.
Na verdade o nosso futuro está refém de um mosaico de parcelas, memória e más decisões. Ficar sentado a ver o fogo avançar não é solução. O futuro não espera por ninguém.
E talvez, nesse futuro, ainda haja lugar para uma cerejeira ou mesmo milhares delas, com cerejas grandes, lustrosas, sumarentas, daquelas que mais do que uma memória dão mesmo gosto comer.
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


