Opinião | 27-07-2026 14:00

A Estalagem do Assombro (para onde ir?)

Vinicius Todeschini

O megaprojeto para dominar o mundo e recuperar a hegemonia propriamente dita, inclui destruir e dividir países como a Rússia, a China e, naturalmente, o Irão, a fortaleza persa do Oriente Médio que não se verga diante do Leviatã. Os próximos capítulos serão muito importantes para ver até onde os EUA e Israel aguentam sustentar tanta animosidade e resistência que não para de crescer contra eles. A aposta é alta e the winner takes it all.

O mundo é redondo, no entanto, os cientistas preferem o termo, geoide, uma superfície física e irregular onde a gravidade varia de um ponto para outro. O planeta Terra é único e a vida humana, animal e vegetal não sobreviveria fora dele, mas, assim mesmo, a nossa espécie continua sem medir as consequências da sua interferência tóxica no planeta. Viajando junto com todo o Sistema Solar, a cerca de um milhão de quilômetros por hora em relação ao centro da galáxia, o nosso planeta é a nossa nave, sem a qual seríamos consumidos. Caetano Veloso criou estes versos pensando nessa relação absurda de um ser insignificante, porém pensante, com o Universo insondável e infinito; “Eu sou um leão de fogo/Sem ti me consumiria/A mim mesmo eternamente/E de nada valeria/Acontecer de eu ser gente/E gente é outra alegria/Diferente das estrelas”. Na Estalagem do Assombro, a pergunta -para onde ir?- criou um lugar absolutamente silencioso, onde a repetição incessante da insanidade megalomaníaca dos homens não pode turvar a entropia cósmica. A incompreensão é a única palavra à altura da nossa ignorância e solidão.

A humanidade nunca estará completamente livre de tiranos, de sociopatas genocidas, nunca haverá paz se depender disso. A sociopatia é uma condição não é uma doença, o sujeito traz isso de berço e o ambiente, onde se constituirá como sujeito, se encarregará do resto. Todas as histórias repetidas infinitas vezes e reinterpretadas por cada nova geração, podem transformar vilões em heróis e libertadores em ditadores. Os tiranos são ridículos, não só porque são grotescos, mas, principalmente, porque o seu narcisismo, delirantemente absurdo, tem o poder de emular em outros uma potência que não existe em nenhum ser. Assim se formam exércitos ao redor dessas almas doentes, obedientes e cegos a perseguir todos aqueles que foram eleitos inimigos mortais por serem os causadores do seu infortúnio. Quando chega a hora da verdade, alguns morrem junto com o messias decaído, que não redimiu nem a si próprio, outros tratam de escrever e espalhar versões que nunca aconteceram de fato ou daquela maneira, descrevendo batalhas que nunca existiram como tal, só para se apropriar da memória coletiva, sempre pronta a embarcar em mais uma fantasia delirante. A memória é uma ficção, portanto não é um arquivo, muito pelo contrário, ela é constantemente reescrita por novos roteiristas.

Heidegger, o filósofo moderno mais influente e inquietante da filosofia, morreu sem nunca explicar, de forma convincente e definitiva a sua associação com o nazismo, explica em seu conceito, Das Man (Impropriedade) que, a conformidade do indivíduo ao coletivo é uma forma de diminuir e até perder a sua autenticidade, ou não alcançá-la jamais, “que no es lo mismo, pero es igual”. Porém, assim é mais confortável e mais oportuno, porque pensar pode ser incômodo e tomar decisões para viver de um modo de vida autêntico, é mergulhar de forma consciente em uma rede intrincada de significados e significantes que se desdobram em relações cada vez mais intrincadas, pela linguagem que nos atravessa e perpassa casa fibra do Dasein (Ser-aí). A tecnologia que ele presenciou se desenvolver de forma assustadora, Heidegger faleceu em 1976, o preocupava, porque, se a percepção da maioria era de algum inofensivo que estava a serviço do bem estar das pessoas no mundo, para ele, que considerava a tecnologia um desvelamento que vinha uma essência mais profunda, ela não é neutra . A tecnologia está criando um ethos sem pathos, cujo sintoma principal é a descentração da humanidade.

Quando se olha a figura torpe de Donald Trump, já apresentando algumas dificuldades na deambulação, mas que em frente às câmeras e aos microfones está sempre empertigado e com aquele ar imperial caricato a criar ou repetir mentiras, podemos facilmente subestimá-lo, entretanto ele é o representante oficial do projeto mais perverso de dominação criado por um império, que percebe a sua hegemonia escorrendo entre os dedos como água corrente. Ao cair na armadilha israelense, Trump viu o seu projeto de perpetuação no Poder ameaçado pela sua perda de popularidade interna, ao entrar em uma guerra, sem perceber a dimensão da tragédia e sem Plano B. Provavelmente, Trump nunca leu Shakespeare, mas ele se parece muito com alguns personagens do Bardo, como Macbeth, por exemplo, cuja ambição, desde o início da trama, aponta para um desfecho trágico. A violência dos EUA nunca foi tão aberta e sem nenhuma diplomacia como agora, o regime atual não tem nenhum prurido em assumir a sua arrogância, o que, durante décadas, graças a um sistema de propaganda altamente eficiente em manipulação, ficou velado, mas eles nunca foram “os mocinhos”. O megaprojeto para dominar o mundo e recuperar a hegemonia propriamente dita, inclui destruir e dividir países como a Rússia, a China e, naturalmente, o Irão, a fortaleza persa do Oriente Médio que não se verga diante do Leviatã. Os próximos capítulos serão muito importantes para ver até onde os EUA e Israel aguentam sustentar tanta animosidade e resistência que não para de crescer contra eles. A aposta é alta e the winner takes it all (o vencedor leva tudo).

Vinicius Todeschini 14-07-2026

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