A próxima moto pode nunca ser sua
Hoje em dia tudo disputa a nossa atenção. As aplicações foram desenhadas para nos prender. Os algoritmos sabem mais sobre nós que muitos amigos (:) A moto faz exatamente o contrário. Obriga-nos a olhar para a curva seguinte, para o estado do piso, para a distância de segurança, para o som do motor, para a chuva que se aproxima.
Tenho uma Hornet, sou apaixonada por ela e não me vejo a trocá-la tão cedo.
Mas tenho dois problemas:
• Na minha “to do list” estão viagens aos Picos da Europa, Marrocos e mais um ou dois locais.
• As minhas costas não aguentam uma viagem destas na minha companheira de estrada.
Foi então que comecei a estudar tudo isto. Faz sentido comprar uma trail para uma ou duas grandes viagens por ano, quando sei que, nos restantes 350 dias, continuaria a preferir a minha Hornet?
Foi esta pergunta que me levou a explorar um mercado ao qual nunca tinha prestado grande atenção: o aluguer de motociclos, e confesso que fiquei surpreendida.
Hoje é possível voar para destinos como os Alpes, os Picos da Europa ou Marrocos e levantar, à chegada, uma BMW GS, uma Honda Africa Twin ou uma Ducati Multistrada já equipada para a viagem.
Em muitos casos, o aluguer inclui malas, assistência em viagem e diferentes opções de seguro. Algumas empresas disponibilizam ainda GPS, equipamento ou até itinerários preparados para quem quer apenas chegar... e conduzir.
Em Portugal, alugar uma trail de média ou grande cilindrada custa, em média, entre 70 e 120 euros por dia, dependendo da época do ano, do modelo e da cobertura do seguro. Uma semana pode representar um investimento entre os 500 e os 800 euros.
À primeira vista parece muito, mas depois fazemos contas. Comprar uma segunda moto implica um investimento muito superior, seguro, manutenção, revisões, pneus, imposto, espaço na garagem... para uma utilização que, para muitos motociclistas, talvez aconteça apenas uma vez por ano.
Por outro lado, apesar de financeiramente fazer sentido, há algo ainda um pouco desconfortável, e o problema aqui é cultural.
Durante décadas crescemos com a ideia de que o objetivo era encontrar a moto perfeita, aquela que fazia tudo, mas, aparentemente, hoje estamos a caminhar precisamente na direção oposta.
Talvez já não procuremos uma moto para todas as experiências, mas a moto certa para cada experiência. Os números mostram que o mercado continua saudável.
No primeiro semestre de 2026, Portugal registou um crescimento de cerca de 23% nas matrículas de veículos de duas rodas, o que confirma que o interesse pelo motociclismo continua a aumentar.
Mas, ao mesmo tempo, cresce a oferta de aluguer especializado, de viagens organizadas e de soluções que permitem experimentar modelos diferentes sem a
necessidade de os comprar.
Esta mudança não acontece apenas no motociclismo. Já nos habituámos a subscrever música, filmes e software, em vez de os comprar. No setor automóvel,
o renting e o leasing deixaram de ser soluções exclusivas das empresas e passaram a fazer parte da escolha de muitos particulares, ou seja, o importante deixou de ser possuir para passar a ser utilizar.
Será que as motos vão seguir o mesmo caminho? Talvez não de forma tão evidente, porque existe uma ligação emocional muito maior, mas é inegável que o mercado está a adaptar-se. Crescem as empresas de aluguer especializado, as viagens organizadas com moto incluída e as experiências que permitem conduzir diferentes modelos sem o compromisso da compra, e isso diz-nos alguma coisa sobre a forma como uma nova geração olha para a mobilidade... e para a paixão pelas duas rodas.
Este é um tema sensível para quem acredita, e com razão, que nenhuma moto de aluguer substituirá a ligação criada com a nossa própria máquina, mas talvez a questão já não seja essa. Talvez não estejamos a trocar uma pela outra, mas apenas a acrescentar uma nova forma de viver o motociclismo.
A verdade é que nunca tivemos tanta oferta. Nunca foi tão fácil experimentar modelos diferentes, ou escolher uma moto para uma viagem específica, sem que isso implique mudar completamente de garagem.
Basta conversar com motociclistas mais novos para perceber uma diferença geracional. Muitos deles não deixam de fazer uma viagem porque não têm a mota "ideal". Procuram alternativas. Alugam, partilham custos, voam até ao destino e levantam a moto à chegada.
Para esta geração, a experiência começa a pesar mais do que a propriedade, e talvez seja essa a maior mudança de todas. Durante anos, o sonho era ter
a moto perfeita, mas hoje, para muitos, o sonho é simplesmente fazer a viagem.
No fundo, talvez seja isso que sempre importou.
Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Julho de 2026


