A inusitada seca no Castelo do Bode, as lutas despidas de preconceitos e contar camiões para adormecer
Inolvidável Manuel Serra d’Aire
Inolvidável Manuel Serra d’Aire
Como não começar pelo fim do teu último e-mail e pela menção que fazes ao espírito altruísta e à humildade de um ex-presidente de câmara que, impedido de se recandidatar pela ignóbil e discriminatória lei da limitação de mandatos, se vê na contingência de passar à disponibilidade, digamos assim; mas que, imbuído da fibra de que são feitos os nossos egrégios antepassados, aceitou passar de cavalo para burro, salvo seja e sem ofensa, e aceitar ser chefe de gabinete de outro presidente de câmara, de outro concelho, caloiro no cargo e que bem necessitado estará de quem lhe dê uma mãozinha.
Mencionaste o caso do ex-presidente da Câmara de Coruche, Francisco Oliveira, que agora é chefe de gabinete do presidente da Câmara de Torres Novas, Trincão Marques, ambos socialistas, e achei curiosa a escolha, dada a distância geográfica, que não partidária. Mas de repente fez-se luz. Um antigo autarca de um concelho que teve que lidar com polémicas ambientais e a contestação contra uma fábrica que incinerava carcaças de vacas loucas, e outras matérias pouco recomendáveis, é o indicado para ajudar o autarca de Torres Novas a lidar com a tal central de gás biometano que querem instalar lá na zona, perto da aldeia de Árgea. O escolhido há-de saber da poda e, se não for suficiente a sua experiência e saber, que traga novamente para a luta a abnegada e curvilínea contestatária que se despiu de preconceitos a protestar contra a tal fábrica de Coruche, já lá vai mais de um quarto de século. E que traga as amigas. Quanto mais melhor!
As chamadas ironias do destino sempre me interpelaram. E não deve haver maior ironia do que viver junto ao maior reservatório de água potável do país, que abastece a capital e não só, e não ter água nas torneiras para o banho, para beber ou cozinhar. Pois é o que acontece com alguns habitantes do Castelo do Bode, que ali vivem paredes meias com a majestosa barragem, com uma imensidão de água à vista e, muitas vezes, sem uma pinga nos canos. Um caso anedótico que, obviamente, não suscita grandes gargalhadas aos lesados mas pode vir a inspirar um bom sketch humorístico.
O mesmo se passa com os moradores da Passinha, em Alenquer, que têm razões de sobra para estarem mais do que passados da cabeça por causa do corrupio de camiões, de dia e de noite, junto às suas casas. A insónia ameaça tornar-se uma doença crónica e há até quem já conte camiões em vez de carneiros para ver se consegue passar pelas brasas. Mas parece que a terapia não dá grande resultado, porque o ruído de um motor de camião não tem grandes propriedades soporíferas.
A devida vénia e beijinhos à prima do
Serafim das Neves


