Futebol, caciques, dança, mulheres livres e as saudades do Alexei Bueno
As mulheres dão dez a zero aos homens na disponibilidade e gosto para dançar; os jogos de futebol já não são pirateados; os partidos que eram a referência da democracia em Portugal estão nas lonas.
O tempo passa a correr mas deixa marcas e muitas vezes das boas. Um dia conheci o Alexei Bueno que me foi apresentado, de boca quase fechada, porque eu tinha que ter cuidado durante o serão literário para não me pôr a jeito de ser desconsiderado. Ao contrário, nessa noite nasceu uma amizade que durou um quarto de século e acabou no dia 26 de Junho, data em que Alexei morreu da doença da moda, logo ele que era sempre do contra, e modas nem as da roupa quanto mais as das ideias.
Com 63 anos de vida Alexei Bueno levou para o caixão o ensinamento de muitas bibliotecas, de muitos livros que escreveu, que prefaciou, que apresentou, que leu com a mesma paixão com que fumava charutos e bebia que nem um desalmado.
É dele, mas eu julgo que ele não inventou nada, a frase dita num início de um congresso onde tinha umas contas a ajustar com um dos congressistas. Vestido com roupa de índio, de rosto pintado para a guerra, com as lanças e as espadas a verem-se para lá das paredes do palácio do congresso, Alexei Bueno disse para um camarada de armas que se preparava para começar a debitar discurso: “Comece a falar, diga alguma coisa para eu ser contra”. Começo a ter saudades do Alexei.
Escrevo este texto num país vizinho de Portugal e acabo de saber que alguém que manda no Sistema acabou com as transmissões piratas de jogos de futebol. As que sobram são todas pagas e obrigam a demorados registos. A eficiência dos tribunais administrativos e fiscais em Portugal piorou, com destaque para o aumento do tempo médio de decisão, segundo dados da Comissão Europeia divulgados ainda neste mês de Julho de 2026. A justiça que faz funcionar o país e garante a democracia deste regime quase podre, vai piorando, piorando, mas os operadores privados de TV têm a polícia do seu lado a caçar os operadores piratas. Nada contra. Deixo aqui a nota porque acho que estamos cada vez mais nas mãos de grandes sacanas que sonharam ser ricos, e vão conseguir concretizar os seus sonhos, à custa de um país que os militares lhes ofereceram. E não estamos em África... é bom lembrar.
O Bloco de Esquerda acabou, como vai acabar o PCP e o CDS, e daqui a uns tempos o PS e o PSD. Se não acabarem tornam-se insignificantes como já acontece aos três primeiros desta lista: existem mas já não contam para o totobola. O que dói é perceber que nos dois partidos que dividem o poder em Portugal milita a fina flor do entulho, junto com algumas pessoas sérias que não vão para a política para se governarem, mas para prestarem serviço público, devolvendo ao país aquilo que o país já fez por eles e pelos seus amigos e familiares. E porque fecham os olhos aos camaradinhas que boicotam isto tudo e baixam a fasquia ao nível do seu analfabetismo, do clientelismo que, regra geral, começa nos pequenos empresários e vai até aos líderes das famílias mais ricas?
Não há explicação para que ainda haja tantos caciques ao serviço de esquemas que saltam à vista, que de vez em quando abrem noticiários de televisão, quando a própria comunicação social resolve fazer as suas excepções. Sim, a crise também já chegou à comunicação social. Somos tão poucos que quando os maiores se calam relativamente a um caso, o assunto pode desaparecer e tornar-se invisível. Há caciques que aprenderam a lidar com a comunicação social como aprenderam noutros tempos a lidar com a máquina do Estado, que é gigante e ninguém controla verdadeiramente, onde circula muito dinheiro e interesses inconfessáveis.
Para corresponder ao tempo de Verão em que vivemos, vou tratar aqui um assunto “político” pouco comum: Os homens estão cada vez mais arredados da arte da dança. Embora seja moda abrir escolas de danças latinas, de tango e Lind Hope, as mulheres dão dez a zero aos homens. O problema é quando a dança é a par; as mulheres fazem fila entre pares para conseguirem dançar com os poucos homens que aparecem na escola ou nas oficinas que se vão realizando por aí e são os novos pontos de encontro onde se mistura a arte da dança com o convívio social. Nada que não tenha pergaminhos nas discotecas, que se enchem de gente ao fim-de-semana na grande Lisboa e no grande Porto, onde se concentra mais de metade da população portuguesa. O que me leva a escrever sobre o assunto é a emancipação do chamado sexo fraco. Hoje as mulheres estão mais livres para viajarem que os homens, divorciam-se com muito mais facilidade do que aturam duas brigas seguidas, depois saem de casa e vão dançar e fazer novos amigos. O chamado sexo forte já era: ainda é parte importante da relação, como será sempre, mas as mulheres ganharam estatuto e estão uns pontos à frente dos homens na dança, na liberdade de escolha em certas áreas da vida moderna que inclui a ida regular ao cinema e ao teatro. JAE.


