Pôr do Sol
Quando um pai se vai, ficamos sós e desnudados. Tal como quando nascemos. Ficamos indefesos e entregues a nós próprios, sem protecção, sem desculpas e sem álibis.
O olhar é vítreo, fixo e longínquo. Aparentemente, um enorme vazio irradia daqueles olhos. O seu interior é um mistério e ninguém adivinha os sentimentos que o habitam. Sorri mecanicamente, como que para agradar. Sorri, porque sabe quem eu sou. Quer-me ali e por isso tenta reter-me. Esse doce sorriso que me preenchia a alma. Tive sempre medo que não soubesse quem eu era. Assim foi com a minha avó, que deixou de reconhecer o filho.
As conversas fluíam, por vezes sem nexo, ou com fios condutores aqui e ali entrecortados. Histórias de antanho, cujos finais já sabíamos de cor. Umas repetidas que construíram a mística familiar, outras surpreendentes, que apenas a demência tinha permitido revelar: “Aquela namorada do Cadaval dava uns beijos valentes!”. Mas, à medida que o tempo lhe escapava, mais raras eram essas narrativas e mais ansiosos ficávamos por elas. Desesperávamos por perceber que o tempo as ia engolindo, definitivamente.
Nem as jogatanas de dominó com nora, netos e filhos, jogadas com afinco, desmontavam aquele rosto sereno, conformado e sempre em paz consigo mesmo. Ainda que as abluções diárias não corressem bem, o outrora semblante circunspecto e intimidador, esculpido nas rotinas militares, desfazia-se em pedidos de desculpas e em agradecimentos pelos cuidados que recebia.
Sem arrependimentos, sem rancores, sem desesperos. A única queixa que se lhe escutava, sussurrava-a aos filhos “a tua mãe morreu muito cedo: sabes, foi-se embora muito cedo”. Dizia-o com os tais olhos presos, que não denunciavam vinte e três anos de saudades. Sempre assim foi. Austero, engolia os sentimentos como se temesse que lhe perturbassem a normal ordem do seu quotidiano. “Os miúdos estão bem?”, repetia insistentemente. “Claro que sim pai, eles vêm aí também”, respondia. Esquecia-se e logo repetia “Os miúdos estão bem?”.
As demências são mistérios insondáveis. Grudam-se à personalidade de cada um e aquela que se lhe colou, nunca conseguiu acabar com o prazer de um pastel de nata, ou de uma bica bem tirada.
Visto à distância, cada vez tenho menos dúvidas. Os sentimentos que sempre lhe inundaram o coração, nunca se desvaneceram. O olhar do meu pai só aparentemente enganava. Soube sempre, até ao fim, quem eram os seus. Nunca nos perdeu no seu doce pôr do sol. Afinal, éramos o seu mundo, assim como ele, sem o sabermos, era a nossa poderosa âncora.
Quando um pai se vai, ficamos sós e desnudados. Tal como quando nascemos. Ficamos indefesos e entregues a nós próprios, sem protecção, sem desculpas e sem álibis.
Porquê escrever agora sobre alguém que saiu do meu convívio há já mais de um ano? Porque aprendi que nunca se choram todas as lágrimas, que as vamos derramando todos os dias até ao nosso ocaso e porque há momentos na vida que são assim. Sem explicação.
Esta saudade que está escrita a escopro no meu coração, não é uma homenagem póstuma, ou uma declaração fora de tempo. Pretende antes ser um profundo tributo a todos aqueles e aquelas que, agora mesmo, vão sofrendo a neblina do entendimento – como muitos de nós amanhã, claro. Aqueles e aquelas que foram, um dia, actores vigorosos desta vida, intérpretes fogosos dos seus destinos, comandantes sábios das suas barcas. Pessoas com esperanças concretas, que amaram, choraram, riram, trabalharam e que, um dia, foram lentamente desaparecendo do protagonismo da história.
Hoje, quando tantos estão isolados, mergulhados nos seus mundos, quase a pedir desculpa por ainda cá estarem, por favor, se tiverem alguém, agarrem-nos com unhas e dentes, amem-nos e beijem-nos. Aproveitem-nos bem enquanto ainda cá estão. São doces pores do Sol.
P.N.Pimenta Braz


