Opinião | 03-08-2026 11:19

O cheiro da fumaça

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

As notícias precisam de palavras capazes de reunir milhares de pessoas: refugiados, civis, combatentes, sobreviventes, mortos. Sem elas, talvez fosse impossível informar ( : ) Talvez por isso eu continue procurando nomes nas legendas. Descobrir a identidade de uma menina não deterá um exército, mas um nome ainda atrasa o desaparecimento.

Não sei exatamente quando isso começou, mas, toda vez que leio no jornal notícias de uma guerra, sinto cheiro de fumaça entrando pela janela do apartamento. Durante algum tempo atribuí essa impressão às fotografias, como se os olhos, incapazes de permanecer sozinhos diante do que viam, convocassem o restante do corpo para completar a cena. Hoje não procuro explicação tão depressa. Levanto-me, abro a janela e verifico o que acontece lá fora.

Fortaleza continua vivendo sua manhã sem qualquer sinal de incêndio. Um ônibus atravessa a avenida, o entregador equilibra a motocicleta junto à calçada, uma mulher sacode um tapete na varanda do prédio vizinho e, mais adiante, alguém abre as janelas para deixar entrar o vento que ainda traz alguma coisa do mar. Nada naquela paisagem justificaria o cheiro, mas ele permanece por alguns minutos, discreto e obstinado, como se a distância não fosse suficiente para impedir certas coisas de chegar.

Nunca estive numa guerra, nunca ouvi uma bomba cair nem precisei decidir, em poucos minutos, o que levaria comigo ao abandonar uma casa. Talvez por isso me demore nas fotografias. Leio as reportagens no computador ou nas páginas do jornal, avançando devagar pelas colunas, voltando aos parágrafos e procurando nas legendas uma informação que quase sempre falta.

Ali estão o nome da cidade, o número de mortos, a direção dos ataques, as declarações dos governos e as consequências previstas para os dias seguintes. Há mapas, datas, estimativas e análises destinadas a organizar o conflito para quem o acompanha de longe. Em meio a tanta precisão, encontro pessoas carregadas nos braços, mulheres atravessando ruas destruídas, crianças cobertas de poeira e homens parados diante do lugar onde, poucas horas antes, havia uma casa.

Quase nunca sei como se chamam.

Essa ausência começou a me inquietar mais do que os números. Um nome não diminui a tragédia nem reconstrói o que foi destruído, mas impede que alguém desapareça inteiramente dentro da notícia. Enquanto uma pessoa continua sendo Miriam, Omar, David ou Alice, ainda podemos imaginar uma mesa de cozinha, uma roupa esquecida no varal, um caderno aberto sobre a cama, uma discussão boba pela manhã ou alguém chamando do outro cômodo porque a comida está esfriando. O nome não explica uma vida, apenas lembra que ela existia antes da fotografia.

As notícias precisam de palavras capazes de reunir milhares de pessoas: refugiados, civis, combatentes, sobreviventes, mortos. Sem elas, talvez fosse impossível informar. O problema começa quando passamos a acreditar que a palavra basta. Aquele que tinha uma profissão, vizinhos, um gosto musical duvidoso, um medo antigo e uma maneira própria de rir passa a caber apenas num lado.

Talvez por isso eu continue procurando nomes nas legendas. Descobrir a identidade de uma menina não deterá um exército, mas um nome ainda atrasa o desaparecimento. Quando o encontro, consigo lembrar que aquela pessoa esteve no mundo de uma maneira que ninguém repetirá exatamente, embora o jornal lhe conceda apenas alguns centímetros de página.

Quando o nome não aparece, volto à fotografia e tento guardar algum detalhe: um laço no cabelo, a estampa de uma camisa, uma mão pousada no ombro de outra pessoa, um sapato sem par entre os escombros. Penso em quem escolheu aquela roupa, quem penteou aqueles cabelos ou quem ainda procura o dono do sapato em hospitais, listas e ruas que talvez já não reconheça.

Depois fecho o jornal e retorno à janela. Fortaleza permanece inteira diante de mim, com os prédios de pé, o mar ao longe e as pessoas ocupadas com a continuação de seus dias. Uma mulher recolhe roupas da varanda, um carro toca a buzina, alguém fecha uma porta com força. Espero alguns minutos até que o vento volte a trazer apenas o cheiro habitual da cidade.

Antes de fechar o vidro, procuro outra vez a fumaça.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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