Opinião | 04-08-2026 10:50

Europa está pouco preparada para enfrentar vagas de calor

Europa está pouco preparada para enfrentar vagas de calor

De acordo com os dados mais recentes disponíveis, referentes aos Censos de 2021, em Portugal, apenas 17% das habitações possuíam ar condicionado, um valor inferior à já baixa média europeia. Este é um artigo que resulta de uma parceria entre O MIRANTE e o Instituto+Liberdade.

A recente vaga de calor que atingiu grande parte da Europa voltou a evidenciar a vulnerabilidade do continente perante temperaturas extremas. Em vários países, os termómetros ultrapassaram os 40 °C, com consequências ao nível da saúde pública, dos incêndios florestais e do funcionamento de infraestruturas essenciais.

Em França, o calor esteve associado a milhares de mortes em excesso, alimentou incêndios de grande dimensão e obrigou ao encerramento ou à adaptação do funcionamento de diversas escolas e outros edifícios sem sistemas de climatização adequados. Em Espanha, as temperaturas excecionalmente elevadas também contribuíram para um aumento da mortalidade, para a propagação de incêndios e para perturbações em vários serviços públicos.

Apesar de fenómenos desta natureza serem cada vez mais frequentes, a Europa continua a apresentar uma reduzida utilização de ar condicionado nas habitações. Segundo a Agência Internacional da Energia (IEA), apenas 23% dos alojamentos familiares europeus estavam equipados com este sistema em 2025.

Em Portugal, a realidade é ainda mais expressiva. De acordo com os dados mais recentes disponíveis, referentes aos Censos de 2021, apenas 17% das habitações possuíam ar condicionado, um valor inferior à já baixa média europeia.

A comparação internacional evidencia bem esta diferença. No Japão, 93% das habitações dispõem de ar condicionado, enquanto nos Estados Unidos essa percentagem atinge os 90%. Na China, a taxa de penetração é de 79% e, mesmo no Sudeste Asiático, onde o rendimento médio por habitante é significativamente inferior ao europeu, 29% dos alojamentos familiares já contam com este equipamento.

É certo que estas diferenças resultam de múltiplos fatores, como as características climáticas, a qualidade do isolamento térmico das habitações, os preços da energia ou os hábitos de consumo. Ainda assim, os dados sugerem que a Europa permanece relativamente pouco preparada para responder a períodos prolongados de calor extremo.

À medida que as alterações climáticas tornam as ondas de calor mais frequentes, intensas e duradouras, a capacidade de adaptação das habitações e das infraestruturas poderá assumir uma importância crescente na proteção da saúde pública, no conforto das populações e na resiliência das cidades.

André Pinção Lucas e Juliano Ventura

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