Europa está pouco preparada para enfrentar vagas de calor
De acordo com os dados mais recentes disponíveis, referentes aos Censos de 2021, em Portugal, apenas 17% das habitações possuíam ar condicionado, um valor inferior à já baixa média europeia. Este é um artigo que resulta de uma parceria entre O MIRANTE e o Instituto+Liberdade.
A recente vaga de calor que atingiu grande parte da Europa voltou a evidenciar a vulnerabilidade do continente perante temperaturas extremas. Em vários países, os termómetros ultrapassaram os 40 °C, com consequências ao nível da saúde pública, dos incêndios florestais e do funcionamento de infraestruturas essenciais.
Em França, o calor esteve associado a milhares de mortes em excesso, alimentou incêndios de grande dimensão e obrigou ao encerramento ou à adaptação do funcionamento de diversas escolas e outros edifícios sem sistemas de climatização adequados. Em Espanha, as temperaturas excecionalmente elevadas também contribuíram para um aumento da mortalidade, para a propagação de incêndios e para perturbações em vários serviços públicos.
Apesar de fenómenos desta natureza serem cada vez mais frequentes, a Europa continua a apresentar uma reduzida utilização de ar condicionado nas habitações. Segundo a Agência Internacional da Energia (IEA), apenas 23% dos alojamentos familiares europeus estavam equipados com este sistema em 2025.
Em Portugal, a realidade é ainda mais expressiva. De acordo com os dados mais recentes disponíveis, referentes aos Censos de 2021, apenas 17% das habitações possuíam ar condicionado, um valor inferior à já baixa média europeia.
A comparação internacional evidencia bem esta diferença. No Japão, 93% das habitações dispõem de ar condicionado, enquanto nos Estados Unidos essa percentagem atinge os 90%. Na China, a taxa de penetração é de 79% e, mesmo no Sudeste Asiático, onde o rendimento médio por habitante é significativamente inferior ao europeu, 29% dos alojamentos familiares já contam com este equipamento.
É certo que estas diferenças resultam de múltiplos fatores, como as características climáticas, a qualidade do isolamento térmico das habitações, os preços da energia ou os hábitos de consumo. Ainda assim, os dados sugerem que a Europa permanece relativamente pouco preparada para responder a períodos prolongados de calor extremo.
À medida que as alterações climáticas tornam as ondas de calor mais frequentes, intensas e duradouras, a capacidade de adaptação das habitações e das infraestruturas poderá assumir uma importância crescente na proteção da saúde pública, no conforto das populações e na resiliência das cidades.
André Pinção Lucas e Juliano Ventura


