Opinião | 12-08-2026 15:00

Preservar o património arqueológico da nossa democracia e reservar lugar para a inauguração do novo aeroporto

Emails do outro mundo

Bronzeado Manuel Serra d’Aire

Bronzeado Manuel Serra d’Aire
Em Santarém tem havido algum burburinho porque o presidente da câmara, João Leite, eleito pelo PSD, quer impor disciplina na colocação dos cartazes de propaganda política no espaço público, para combater a poluição visual. Há gente que aplaude porque está farta de ver as mesmas caras e as mesmas mensagens o ano todo espalhadas pela terra, haja eleições ou não; e há quem seja do contra, como o PCP, que diz tratar-se de um ataque à liberdade de expressão. Eu concordo com os comunistas (porque também gosto de ser do contra) e até diria mais: trata-se de um despudorado ataque ao património arqueológico da nossa democracia.
Se há coisa que me conforta e reconcilia com Deus é a contemplação de uma amálgama de caras, cores e mensagens numa qualquer rotunda, em cartazes gigantes fixos em estruturas metálicas desengonçadas e ferrugentas. Aquelas instalações têm um verniz retro, analógico, que contrasta com estes tempos digitais, de inteligência artificial e realidade virtual. Para mim, têm até mais valor artístico do que um urinol ou uma banana fixada com fita-cola numa parede, obras de arte que renderam milhões.
É imperioso preservar esse património como há que zelar pelos tempos de antena, autêntica música para os ouvidos de qualquer melómano minimamente ilustrado. E, já agora, defender o que resta das pinturas de slogans panfletários e símbolos políticos em muros e paredes de prédios que vêm dos tempos do PREC - prática outrora muito em voga e que ainda vai sendo exercida pelos últimos descendentes dos artistas do paleolítico que andaram por Foz Côa.
Fulminante Manel, é vulgar e banalizada pelo cinema e literatura aquela velha manobra de distração de se mandar uma pedra, um pau ou qualquer outra coisa que cause barulho em determinado local, para desviar atenções indesejadas sobre nós ou onde nos encontramos. É nesse contexto que coloco o recente anúncio, por parte do Governo, do início das obras do novo aeroporto em Benavente em 2029 e da sua entrada em funcionamento em 2037. A intenção é boa, mas não acredito que o truque resulte, porque as atenções estão de tal forma focadas noutros pontos que poucos irão atrás da palha que nos apresentam à frente.
Ficam, no entanto, os prazos para memória futura. E as datas não mentem. Pelo que em 2029 cá estaremos para assistir ao lançamento da primeira pedra no final desta legislatura, se ela lá chegar; e, provavelmente, a tempo de eleições, se as houver. Mas, a acontecer, não será razão para grande foguetório, porque também o aeroporto na Ota teve direito a primeira pedra e nunca passou disso.
De qualquer modo, ficamos a saber que, a cumprir-se a previsão governamental, o processo de gestação do novo aeroporto de Lisboa vai durar perto de setenta anos, desde a primeira manifestação de intenções. Caso para dizer, com toda a propriedade, que é o projecto de uma vida!
Votos de bons mergulhos do
Serafim das Neves

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