O silêncio também é património
Portugal é um país despovoado e, paradoxalmente, tão rico. Rico em paisagem, água, floresta, silêncio, biodiversidade, património, ar puro e espaço. Recursos cada vez mais escassos e, portanto, cada vez mais valiosos.
Passei parte das minhas férias no Portugal vazio. Digo vazio, não interior. Não aceito que um país estreito como o nosso, com pouco mais de 200 quilómetros entre o Atlântico e a fronteira, possa, verdadeiramente, ter “interior”. O “interior” é sobretudo cultural. Esse, sim, existe, está bem cavado e consolidado. Fiquei na Serra da Malcata, nesse extraordinário Portugal despovoado e, paradoxalmente, tão rico. Rico em paisagem, água, floresta, silêncio, biodiversidade, património, ar puro e espaço. Recursos cada vez mais escassos e, portanto, cada vez mais valiosos. Num desses dias atravessei a fronteira. De Penamacor até Espanha são apenas cerca de 15 quilómetros. Do lado de cá, a Serra da Malcata; do outro, a Serra de Gata. Estes nomes dizem-nos que aquela linha que desenhámos no mapa, fronteira, é essencialmente administrativa. O território continua. A geologia continua, a paisagem continua, a cultura cruza-se, as pessoas relacionam-se há séculos. Do lado português, Penamacor, bonita, altaneira, olhando o território. Do lado espanhol, Valverde del Fresno, pequena e charmosa povoação da Extremadura. Mas atravessar a fronteira permite observar diferenças desconfortáveis.
Na Malcata encontramos uma serra extraordinária onde, pouco ou nada acontece. O silêncio também é património. O problema é que nada está estruturado para quem chega, quer conhecer, caminhar, descobrir ou simplesmente compreender o território. Do lado espanhol, na Sierra de Gata, encontramos informação, percursos, sinalização e estruturas que permitem ao visitante escolher e usufruir — viver o lugar.
Mas, a grande motivação deste texto é a estrada, um exemplo caricatural e grave. Entre Penamacor e a fronteira, a estrada tem um piso bom e largura bastante razoável. Mas faltam marcações no pavimento e a sinalização vertical é muito escassa. Do lado espanhol, a estrada é até mais modesta, mas está claramente marcada e sinalizada. Conduz-se percebendo a estrada, com segurança. Sentimos particularmente essa diferença quando regressámos, já de noite. Em Espanha, a sinalização orientava-nos nas curvas e antecipava o percurso. Entrámos em Portugal desapareceu toda a sinalética que possibilita uma condução segura, diferença não é estética: é uma questão de segurança. E isto acontece numa das portas de entrada do país.
Recordei esta pequena experiência quando voltaram às notícias os números intoleráveis da sinistralidade rodoviária portuguesa. Em 2025, quase 600 pessoas perderam a vida nas nossas estradas. Não são números: são pessoas, famílias interrompidas, vidas que não regressaram a casa. Há certamente muitas explicações. Mas duas são elementares. A primeira é a responsabilidade pública: estradas em bom estado, sinalizadas, fiscalizadas e seguras. É incompreensível e inaceitável não existirem as condições básicas de segurança. A segunda é mais difícil porque nos obriga a olhar para nós próprios: a cultura cívica. Velocidade excessiva, álcool, telemóvel, agressividade, ultrapassagens irresponsáveis e desprezo pelas regras revelam um défice de cidadania que nenhum diploma académico resolve: falta de cultura e atitude cívica que ao volante se traduz em trágicos acidentes. Gostamos de bradar que Lisboa abandonou o interior. É uma explicação cómoda. Há territórios efetivamente esquecidos pelas políticas públicas, mas existe também conformismo local, falta de exigência e incapacidade para cuidar do que é nosso. Talvez o maior problema do interior não seja apenas haver pouca gente.


