Opinião | 21-08-2026 10:10

Silly…People

P.N.Pimenta Braz

Estou farto de tanta estupidez, de tantos idiotas, de tanta hipocrisia, de tanta falta de verdade, que só me apetece é fugir, fugir, fugir. Ah, perdão, de escrever, de escrever, de escrever, sem rumo e sem destino.

Há dias em que me apetece escrever muito, mas sem tema, sem rumo, sem destino. É como se desatasse a correr em direcção ao infinito, até me cansar. E depois? Bom, depois parava, descansava e dormitava. Já quanto ao escrever, o depois é muito mais difícil de antever. Às vezes dói.

Sim, escrever, por vezes, é como correr: é uma necessidade que nos apascenta o corpo, que nos dilata o horizonte e também que nos irrita, sobretudo quando não sai nada de jeito. A escrita permite perscrutar o invisível, descobrir o que há muito se guardava, inventar um destino e solucionar o impossível.

Escrevendo, tenho todo o poder do mundo, ninguém me consegue parar, nem caolhos mentais, nem disputas encomendadas. Sim, escrever pode também ser um acto dissimuladamente assertivo, recôndito na ironia, sanguinário na ponta da caneta, mas desesperadamente viscoso e repelente para quem se julga atingido. Paciência.

Escrever pode mesmo ser um acto heróico, destemido, inusitadamente revolucionário. Fica indelevelmente gravado em quem o faz, para deleite – ou horror – de quem o lê.

Escrever pode também ser um eflúvio libertador que nos desenvencilha daqueles demónios que se alapam nos detalhes da nossa vida e que nos impedem de a abraçar totalmente.

Mas há dias em que escrever também é suplício, dor, lágrimas e desespero. Porque, sem querermos, discorremos sobre temáticas e personagens que não adivinhávamos inicialmente. A caneta - que de longe prefiro -, ou o “tec-tec” do teclado, ganham vida própria e atrevem-se, para minha aflição, a elucubrar autonomamente, grafando considerações que não estavam de antemão previstas.

Lágrimas que provêm de um interior entorpecido, que há muito se julgava resolvido, mas muitas vezes brutalmente domesticado.

Porém, há dias em que esse suplício advém simplesmente do desespero da espuma dos dias, da recusa de escrever sobre pobres diabos que não valeriam sequer uma letra, ou sobre assuntos estafados urdidos para palermas incautos.

Sim, poderia escrever sobre o milésimo relatório sobre a Segurança Social, da burrice política que foi escolher este tema agora e aquela equipa para início de discussão – se é que era isso que se pretendia…-, sobre a sonsice de se misturarem conceitos e realidades imiscíveis, ou de se esconderem premissas e contextos históricos essenciais. Mas não me apetece…

Sim, poderia escrever sobre um ministro que ainda não percebeu que já não o é, sobre o chocante e comprometedor silêncio do PS sobre o tema, sobre uma PJ que foi ignorada na investigação dos 75 mil euros do chefe de gabinete de um primeiro ministro, sobre o escrutínio democrático ad hominem que só irrompe quando convém a alguém. Mas não me apetece…

Sim, poderia escrever sobre o negócio dos fogos, sobre os arbustos pirófitos, sobre quatrocentos mil hectares de eucaliptais abandonados - cujos proprietários se riem de todos nós -, sobre um sistema fiscal caduco, ou sobre a lei das heranças do tempo da Maria Cachucha. Mas não me apetece…

Enfim, poderia escrever ainda sobre a miserável e aviltante posição do PS sobre a “lei da burca”, sobre a infame hipocrisia de alegarem putativos direitos religiosos, sobre o direito das mulheres e a sua dignidade inegociável, sobre essa esquerda - ela sim - que deveria andar de cara tapada como vergonha pública confessada, mas não me apetece…

Estou farto de tanta estupidez, de tantos idiotas, de tanta hipocrisia, de tanta falta de verdade, que só me apetece é fugir, fugir, fugir. Ah, perdão, de escrever, de escrever, de escrever, sem rumo e sem destino.

Se soubessem o que daí resultou…

P.N.Pimenta Braz

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