A inteligência de parar no restaurante Regata
Um lugar inteligente não é necessariamente aquele que tem mais tecnologia, mais equipamentos, mais gente, cliques ou mais investimento. É aquele que reconhece aquilo que é, sabe usar os seus recursos e consegue transformar identidade em qualidade de vida.
Faço com muita frequência a viagem entre o Sul e a Beira Baixa, quase sempre naquele Portugal que se aproxima da fronteira e que, pouco antes ou depois do Tejo, muda de pele. Desta vez parei em Alpalhão. A mudança começa antes. Depois de Estremoz, uma das melhores terras de Portugal para nos sentarmos à mesa, o Alentejo vai-se transformando. Continua a ser Alentejo, evidentemente, mas já é outro Alentejo. A paisagem anuncia o Alto Alentejo e, mais para norte, sente-se a presença da Serra de São Mamede. A geologia manda nisto tudo, como sempre acontece quando muda a paisagem, mudaram as rochas. Os afloramentos graníticos tornam-se presença, belíssimos, arredondados pelo tempo, espalhados pelo território como se sempre tivessem sabido exatamente onde ficar. Gosto particularmente desta estrada porque a paisagem nos entra pelo carro dentro. E talvez viajar devesse ser mais isto: não atravessar lugares, mas deixar que os lugares nos atravessem.
Pouco antes do Tejo fica Alpalhão, freguesia do concelho de Nisa. Conheço-a há muito, por razões profissionais, pelos seus granitos. E recordo outros tempos em que, ao sábado de manhã, pegava na moto e vinha até estas bandas comprar queijo. Queijo de Nisa, naturalmente. Quem gosta verdadeiramente de queijo sabe do que estou a falar. Ainda estou para saber quem mandava: a moto ou o queijo? Numa sexta-feira quente de agosto, Alpalhão voltou a obrigar-me a parar. Desta vez, no Regata, o justamente afamado restaurante.
Poucos minutos depois ocorreu-me uma questão muito simples: como foi possível passar tantas vezes por aqui e ficar tantos anos sem entrar? O Regata não é propriamente uma descoberta recente. É uma casa com décadas de existência, dedicada à cozinha regional, onde os produtos e o receituário do território continuam a mandar. Mas naquele fim de tarde não foi apenas a comida que me prendeu. A agradabilíssima esplanada estava cheia. Famílias, amigos, conversas cruzadas, gente sem pressa. O mesmo ambiente junto ao balcão. E, mal nos sentámos, chegou o pequeno petisco da casa, diferente de dia para dia, colocado nas mesas como quem diz: primeiro recebemos, depois tratamos do resto. É aqui que entra aquilo a que tenho chamado inteligência do lugar.
Um lugar inteligente não é necessariamente aquele que tem mais tecnologia, mais equipamentos, mais gente, cliques ou mais investimento. É aquele que reconhece aquilo que é, sabe usar os seus recursos e consegue transformar identidade em qualidade de vida. Um restaurante como o Regata não serve apenas refeições. Valoriza produtos locais, conserva receitas, dá trabalho, reúne pessoas, prolonga memórias e transforma gastronomia em qualidade de vida. É economia local, mas é também cultura. E é sobretudo comunidade. Talvez seja esta uma das riquezas que continuamos a medir mal. Há lugares que não precisam de inventar uma identidade para atrair visitantes. Precisam apenas de não destruir a que já têm. Alpalhão tem granito, paisagem, queijo, gastronomia, memória e gente. Tem matéria-prima para permanecer com qualidade.
Naquela sexta-feira, tudo aconteceu com vagar. E ainda bem. A semana tinha acabado, estava calor e havia tempo para estar à mesa. Tempo para os amigos. Tempo para conversar. Tempo, simplesmente. Saí do Regata com a certeza de que será difícil voltar a fazer esta estrada sem parar. A inteligência do lugar é também isto: perceber que, às vezes, desenvolvimento não significa andar mais depressa. Significa saber onde vale a pena parar, estar e respirar.
Carlos Cupeto é professor da Universidade de Évora e autor do livro lançado recentemente "A Inteligência do Lugar".


