Os políticos têm sempre coisas importantes para dizer e o tórrido atendimento de alguns serviços do Estado
Imersivo Manuel Serra d’Aire
Imersivo Manuel Serra d’Aire
Não sei se já reparaste, mas os nossos políticos estão feitos uns autênticos escritores, actores, estrelas das redes sociais onde publicam vídeos e textos com uma desenvoltura de fazer inveja a figuras gradas do nosso meio artístico. Há alguns que não passam um dia sem darem sinal de vida, seja a venderem o seu peixe, a darem informações úteis ou mesmo a partilharem estados de alma. O traquejo é tanto que pedem meças a jornalistas batidos nos directos ou a apresentadores com milhares de horas de programas de entretenimento.
Os problemas podem continuar por resolver, mas a sensação com que se fica é que está muita coisa a acontecer no meio desse furacão de publicações que enxameia as redes sociais e outras plataformas. Como agora se constata, as percepções contam mais do que a nua e crua realidade despida de artifícios. O que interessa é dar sinais de vida, porque quem não aparece esquece. Quem quiser entrar na política de hoje, tem de saber aparecer e convencer. E quem falhar, fica com o rótulo de erro de casting.
Vivemos no tempo dos espectáculos imersivos, das experiências imersivas e de outras coisas imersivas que demonstram bem como a moda invade o campo do vocabulário. Imersivo está na moda, como está resiliência, empoderamento ou sustentabilidade. Já não falo dos anglicismos do linguajar de hoje, usados a torto e a direito, muitas vezes sem nexo e sem grande proveito, porque as alternativas em português são mais certeiras e mais bonitas. Mas, caramba, como é que um indivíduo revela ao mundo que é moderno e cosmopolita se não mandar uns bitaites na língua de Shakespeare?
Com o calor que se tem feito sentir até eu tenho tentações imersivas, neste caso consubstanciadas num banho no Atlântico, seguido de um mergulho num copo de cerveja gelada, enquanto os meus olhos vagueiam pela paisagem de areia e mar, nos raros momentos em que as vistas não são interpeladas pelos biquínis que passam, atrevidos, sem pedir licença a quem pretende apenas momentos de contemplação e recolhimento na eterna demanda do sentido da vida.
Tal como diversos especialistas, também eu deixo aos mais incautos as minhas recomendações para enfrentar o calor: não recorram a alguns serviços de saúde da região, sob pena de entrarem com febre e saírem cozidos devido à falta de climatização das instalações. Ao que parece trata-se de uma pandemia com tendência a alastrar a outros serviços estatais, pois também os trabalhadores das Finanças se queixaram da falta de ar condicionado em várias repartições do distrito de Santarém. Há uns anos foi anunciada uma vacina chamada PRR para tratar desses e doutros males, mas, pelos vistos, esgotou-se o stock do remédio e muitas mazelas ficaram por curar.
Saudações do veraneante
Serafim das Neves


