O papel da comunicação social na denúncia de um Estado que umas vezes é pai outras enteado
As notícias de proximidade como aquelas que nós escrevemos exigem gente no terreno, uma porta aberta para a comunidade, gente que do outro lado não produz informação só para sustentar poderes políticos e económicos. Raramente é notícia um apelo nacional para acudir a uma pessoa que não tem o apoio do Estado para se salvar de uma doença, por não ter como muitos outros o apoio do Estado que para uns é pai e para outros enteado.
Há um ditado que diz que quem confessa a verdade não merece castigo. Vem o mesmo a propósito desta crónica semanal ainda durar depois de tantos anos a teclar. Confesso que a crónica resiste por impulso do trabalho diário. Há semanas em que é escrita no calor das conversas entre pares. Não tenho qualquer vontade de me substituir aos jornalistas de O MIRANTE depois de tantos anos na labuta. Não perdi o prazer de escrever para o jornal, de fazer parte da equipa, mas não tenho tempo para fazer tudo o que gosto; por isso algumas coisas têm que ficar pelo caminho. A crónica deixou de ser prioridade na minha agenda, mas resiste. Esta semana é um bom exemplo para escrever, com conhecimento de causa, que ninguém arruma as botas enquanto tiver pernas para andar.
Ao longo de muitas décadas, O MIRANTE tem ajudado muita gente em situação dramática de doença. Lembro-me de alguns casos em que fomos importantes na compra de cadeiras de rodas, de pagamento de cirurgias, de internamentos em hospitais privados, de ajudas financeiras a pessoas desesperadas com a doença de filhos, netos e outros familiares. Tenho de memória os telefonemas de pessoas que nos deram conta dos montantes que transferiram, informando antes que queriam fazê-lo para as nossas contas bancárias para terem a certeza que o dinheiro chegava; outros que nos pediram que os representássemos na doação e não quiseram ser identificados. Arrisco escrever que em todos os casos nunca fomos enganados, nunca demos visibilidade a situações de pedidos de ajuda humanitária que não merecessem a ajuda dos leitores. Não quero saber, nem para o caso interessa compreender as pessoas que ao longo dos anos pediram ajuda, mas que se negaram a dar o rosto pedindo que tivéssemos dó. Há casos gritantes de familiares que, por pudor, aceitam campanhas de solidariedade, mas fogem à exposição como o diabo foge da cruz. E como eu os compreendo. Não sei se não faria o mesmo se precisasse da ajuda anónima; se, para viver, tivesse que pedir publicamente que me ajudassem a pagar aos médicos e aos hospitais. Com muitas pessoas o orgulho fala mais alto que o sentido da sobrevivência. Há muita gente que prefere morrer de dor que de vergonha. E pedir dinheiro e solidariedade à comunidade para salvar a vida, ou viver mais uns anos, ou para pagar tratamentos que dão qualidade de vida, pode custar mais que aguentar a dor e o sofrimento. O Estado falha na grande maioria dos casos porque somos um país pobre; e somos ricos, às vezes, quando estão em causa os interesses de pessoas que se movimentam muito bem junto dos políticos ou de quem os representa nas instituições.
No dia em que escrevo este texto ligaram-nos a dar conta que havia uma família mobilizada para ajudar uma outra família que precisa de ajuda. Mas estavam a encontrar dificuldades. Perguntaram-nos como deviam proceder já que temos informação privilegiada. Quiseram saber como era possível negarem a ajuda que estava a ser disponibilizada. Não queriam acreditar que não tivéssemos uma resposta; como se fôssemos especialistas na matéria e não profissionais da comunicação social.
A comunicação social portuguesa notícia com regularidade um morto por esfaqueamento na Tailândia, ou na Austrália, às vezes vários feridos graves numa escola de uma cidade dos EUA, ou num país do Oriente. Nós vemos e não podemos deixar de pensar no velho ditado: um desastre de mota na nossa terra é uma tragédia, se morrerem 100 pessoas num desastre na China é só mais um desastre. A ideia com que ficamos muitas vezes é que a comunicação social portuguesa, na sua generalidade, só publica certas notícias porque lhes chegam limpinhas sem osso. Não têm trabalho de redacção e muitas vezes de edição. As notícias de proximidade como aquelas que nós escrevemos exigem gente no terreno, uma porta aberta para a comunidade, gente que do outro lado não produz informação só para sustentar poderes políticos e económicos, mas para servir a comunidade. Muito raramente é notícia um apelo nacional para acudir a uma pessoa que não tem o apoio do Estado para se salvar de uma doença, de uma vida no fio da navalha por não ter os recursos próprios para pagar tratamentos, por não ter como muitos outros o apoio do Estado que para uns é pai e para outros enteado. JAE.


