Opinião | 02-09-2026 21:00

Convidar o Presidente para o aniversário da Ponte da Chamusca e acabar com as filas de espera, desligando o ar condicionado

Emails do outro mundo

Epítomador, Serafim das Neves

Epítomador, Serafim das Neves
Há 117 anos, quando foi inaugurada a ponte João Joaquim Isidro dos Reis, conhecida como Ponte da Chamusca, a maior parte dos veículos que a atravessavam eram carroças puxadas por mulas ou por bois. Em todo o país não devia haver mais de dois mil carros. Na região seriam umas dezenas. O carro do padre, se é que ele tinha carta, o do presidente da câmara e de um ou outro ricaço.
Também por lá passava muita gente a pé ou a cavalo, porque bicicletas eram quase inexistentes e as trotinetas eléctricas ainda estavam por inventar. E passavam rebanhos de ovelhas e cabras bem como manadas de bois e cavalos. As estradas eram de terra batida e não me admirava nada que o próprio tabuleiro da ponte também fosse. Queixamo-nos dos dejectos dos cãezinhos, mas as bostas daqueles animais deviam dar tons e aromas bem campestres à ponte.
Nestes últimos cem anos, muita coisa mudou, menos a ponte, que é a mesma. Da meia dúzia de carroças, passámos a centenas e centenas de carros e camiões. Os cavalos a atravessar a ponte, a trote ou a passo, foram rareando, embora por lá continuem a transitar muitas, e cada vez mais, bestas. A ponte foi levando uns remendos, como antigamente a roupa dos pobres, e aí está ela, a celebrar mais um aniversário a 31 de Agosto.
O presidente da câmara da Chamusca, Nuno Mira, e o presidente da Golegã, António Camilo, bem podiam convidar o Presidente da República, António José Seguro, para vir à festa de anos. Digam-lhe apenas que é uma senhora que faz 117 anos, que ainda tem força para despachar diariamente levas de camionistas e automobilistas, que ele é capaz de aparecer.
Com a visita dele, a somar à de Montenegro, que lá foi num dia de caça ao voto, digamos assim, e do presidente da Assembleia da República, vários deputados e uns tantos ministros que por lá tiverem passado, a ponte ainda entra para o livro dos recordes, de tanto ser pisada por políticos.
A propósito da observação que fazes sobre a subida da temperatura em serviços públicos, também constatei que alguns, entre os quais centros de saúde, estão a adoptar a estratégia dos centros comerciais para acabar com a afluência de cidadãos.
Agora no Verão desligam, ou não mandam arranjar, os ares condicionados. No Inverno, presumo que farão o mesmo com o aquecimento. Quem disse que os privados não podem ensinar nada ao público. Afinal, quem é que quer, como perguntas no teu e-mail, entrar num serviço de saúde com febre e sair de lá cozido?
Não sei se te lembras das excursões de velhotes aos centros comerciais só para sentirem o fresquinho do ar condicionado. Aí nem foi preciso desligar os equipamentos, bastou retirar cadeiras, sofás e outros possíveis equipamentos onde eles pudessem descansar, fosse nos corredores ou nas lojas. Remédio Santo. Quem é que consegue estar lá duas ou três horas, mesmo com bengala ou andarilho, a fingir que anda às compras?
Um abraço estival
Manuel Serra d’Aire

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