Opinião | 04-09-2026 08:39

O prolongamento da vida da central nuclear de Almaraz até 2030: uma decisão aberrante

António Redol é um dos 18 subscritores deste artigo

Nas localidades em volta de Almaraz nunca se realizou um exercício de evacuação da população em caso de acidente, o que é obrigatório pelas licenças de concessão e de funcionamento. Nem se distribui sistematicamente comprimidos de iodeto de potássio às populações portuguesas e espanholas para serem tomados em caso de acidente. Pergunta-se o que tencionam fazer o Governo português e as autarquias portuguesas próximas desta central, perante a perigosidade de uma central construída para ter um período de vida muito mais curto do que aquele que lhe querem atribuir.

A central nuclear de Almaraz tem sido objecto de muita atenção por parte dos municípios portugueses e espanhóis vizinhos, os quais por diversas vezes tomaram posição sobre ela. Mas também pelo movimento ambientalista português e espanhol e personalidades de outras origens.

Também se levantaram questões por causa da construção na central do ATI, Armazém Temporário Individualizado, para guardar “temporariamente” os resíduos altamente radioactivos da central.

Em 1970, uma fuga de materiais radioactivos chegou ao Tejo, em cujas margens existia uma instalação de investigação da Junta de Energia Nuclear espanhola, tendo sido ultrapassados os limites legais de radioactividade. Mas, na época, a Censura portuguesa abafou o assunto. Após uma sessão em Vila Franca de Xira organizada pela Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo com a presença de António Eloy e da Confraria ibérica do Tejo, aquela Associação enviou uma carta aos 33 Presidentes de Câmara Municipal de municípios que bordejam o Tejo, chamando a atenção para a necessidade de acompanharem as análises às águas realizadas pelo Laboratório de Protecção e Segurança Radiológica, instalado no IST. No Tejo espanhol, em tempos das ditaduras ibéricas, existiu uma outra central, José Cabrera ou Zorita, a 70 km de Madrid, já encerrada, mas de cujo funcionamento, como é habitual com centrais nucleares mesmo em democracia, pouco se soube.

Em Espanha e em Portugal, tem-se avolumado, desde há anos, a exigência de encerramento da central de Almaraz. Numerosas manifestações em Espanha exigindo o encerramento de todas as centrais (“Almaraz y Todas las Demás!”) e outras intervenções públicas. Em resultado, o Governo Espanhol resolveu encerrar Almaraz I em Novembro de 2027 e Almaraz II em Outubro de 2028 e todas as centrais até 1935.

É que o primeiro grupo nuclear da central, Almaraz I, iniciou o serviço em 1981 e Almaraz II em 1983, quer dizer, há 45 e 43 anos, respectivamente, quando nos anos 70 e 80, no auge da corrida nuclear, se considerava a vida útil de um grupo nuclear em 25-30 anos. A questão não é irrelevante, pois as radiações enfraquecem tanto os aços especiais utilizados como o betão do contentor do reactor. Por isso, frequentemente nas centrais de todo o mundo tem de haver substituição das tubagens, não raro com fissuras de que resultam fugas de produtos radioactivos para dentro e para fora dos edifícios dos reactores. Isto é, contaminando trabalhadores e o ambiente exterior.

Para avaliar a gravidade dessas fissuras, recorde-se que ainda nos anos 80, foram substituídos geradores de vapor (3 por cada reactor) de mais de 20 reactores em vários países, construídos pela Westhinghouse, sabendo-se que cada conjunto de 3 desses equipamentos custava cerca de 20% do custo total de um reactor. Com pouco tempo de vida já apresentavam fissuras nas centenas de tubos que os constituíam. Veja-se como estarão equipamentos com mais de 40 anos. É um risco enorme.

Em Setembro de 2025, numa apresentação em Londres dos investimentos programados da Iberdrola, - uma das empresas proprietárias da central : Iberdrola 53%, Endesa 35% e Naturgy 11%; também proprietárias da centrai de Trillo -, o seu Presidente anunciou que Almaraz seria encerrada brevemente. São só os políticos que mentem?

Todavia, a 30 de Outubro de 2025, os proprietários da central solicitaram autorização ao Governo para prolongar a vida dela para além dos prazos previstos. Pensa-se que querem evitar investimentos em novas renováveis e, sobretudo, atrasar o desmantelamento da central, o que poderá demorar quase trinta anos e custar quase tanto quanto custa uma central nuclear nova, dadas a morosidade e as grandes dificuldades da operação. Até hoje poucas centrais em todo o mundo foram desmanteladas. E as empresas querem que sejam os Estados a pagar.

Em 17 de Novembro, o Ministerio para la Transición Ecológica y el Reto Demográfico (MITECO) enviou o pedido ao Consejo de Seguridad Nuclear (CSN). Em 8 de Dezembro esta entidade pede esclarecimentos e documentação aos proprietários; resposta destes em 17 de Fevereiro de 1926. Em 16 de Julho, a CSN envia o seu parecer ao Ministério, depois de visitas, ensaios na central e esclarecimentos desta. Em 12 de Agosto, o Ministério autoriza o prolongamento da vida da central até 2030.

Vemos como o processo foi rápido e imaginemos como seria em Portugal, com a extrema lentidão da administração pública!

No entanto, a decisão da CSN não foi pacífica. Um dos seus membros, Francisco Castejón opôs-se e apresentou um voto que tornou público. Denuncia a forma habilidosa como os proprietários apresentaram o pedido: “Modificação da Autorização de Exploração”, sem que haja qualquer artigo do Regulamento de Instalações Nucleares e Radioactivas em que se baseie. Depois, refere que a renovação se verifica sem que fosse realizada uma Revisão Periódica de Segurança segundo o Regulamento de Instalações Nucleares e Radioactivas.

A celeridade do processo não permitiu contemplar todos os requisitos derivados da última autorização de exploração de 2020, mas apenas os que foram considerados mais relevantes, nomeadamente: “Assegurar a independência necessária para priorizar a segurança […] Este tema não só responde a um incumprimento de um compromisso, como constitui um elemento relevante para o futuro funcionamento da central”. Quanto a aspectos relacionados com acções humanas, apenas alguns foram tidos em conta. A redução programada do pessoal afigura-se ser incompatível com um funcionamento minimamente seguro. Também a análise de certos equipamentos não foi realizada, bem como os riscos de incêndios

Em conclusão, uma apressada e rudimentar análise para um risco tão elevado.

A decisão do Ministério é acompanhada de um longo texto com justificações pouco sólidas, como a de que um prolongamento da vida da central por 36 meses num grupo e 19 noutro é uma ínfima parte da sua vida total e que não terá grande de efeito na renovação do parque eléctrico com energias renováveis, nem na tarifa da energia eléctrica, o que é desmentido por um estudo da Universidad Rey Juan Carlos (URJC) e da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC).em que se afirma que as tarifas ao consumidor terão de subir. O Ministério entende que também pouco aumentam os resíduos radioactivos, nomeadamente os de muita longa duração. E argumenta com a Crise do Médio Oriente, cuja relação não se compreende. Todavia, garante que todas as centrais espanholas serão encerradas até 2035.

Entretanto, em 25 de Maio último, verificou-se um problema numa válvula do circuito de arrefecimento de Almaraz I. Recorda-se que os graves acidentes de Three Mile Island, nos EUA, Chernobyl, na ex-União Soviética e Fukushima, no Japão, resultaram de falhas do circuito de arrefecimento. Por isso, a Delegação do Governo chegou a admitir desencadear o Programa de Emergência Exterior. Novo problema nas válvulas se verificou a 31 de Julho, com uma paragem de 20 dias de Almaraz I. A central e o CSN tentaram ocultar o sucedido.

Mas repare-se como são frequentes as “intermitências” em centrais nucleares, como as referidas e muitas outras. Nos últimos verões em França paragens prolongadas devido ao aumento da temperatura das águas de arrefecimento dos rios e este ano na Hungria devido à escassez de água no Danúbio. Também na Roménia. Muitos outros acontecimentos deste género e mais graves se verificaram e verificam onde há estas centrais.

Por outro lado, nas localidades em volta de Almaraz nunca se realizou um exercício de evacuação da população em caso de acidente, o que é obrigatório pelas licenças de concessão e de funcionamento. Nem se distribui sistematicamente comprimidos de iodeto de potássio às populações portuguesas e espanholas para serem tomados em caso de acidente, pois este composto reduz a absorção do iodo radioactivo pelo organismo humano, produto que então se liberta.

Pergunta-se o que tencionam fazer o Governo Português e as autarquias portuguesas próximas desta central, perante a perigosidade de uma central construída para ter um período de vida muito mais curto do que aquele que lhe querem atribuir.

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