Opinião | 07-09-2026 19:30

Há mais motos, mas menos paixão

Há mais motos, mas menos paixão
Susana Esteves. Jornalista e motociclista

Se queremos mais motos nas cidades, precisamos de melhores condições para as motos. Se queremos novos motociclistas, precisamos de melhor preparação, e se queremos que as duas rodas sejam uma verdadeira solução de mobilidade, precisamos também de preservar uma cultura de respeito entre quem as utiliza.

Há cada vez mais motos nas nossas estradas. Em Portugal, até julho deste ano, foram matriculados mais 19,7% do que no mesmo período de 2025. Só os motociclos de 125 cc cresceram 25,1%. É fácil justificarmos estes números com o crescimento dos serviços de entrega, e para o mercado é ótimo, mas tenho pena que os recém-chegados não tenham uma relação com a moto igual “à nossa”.

O que sinto é que parece estar a desaparecer uma espécie de código não escrito entre motociclistas. Não falo das grandes teorias sobre camaradagem. Coisas simples: o cumprimento, a entreajuda, o respeito na estrada uns pelos outros, nos ultrapassagens, nos estacionamentos para não trancar ninguém. Eu nunca apanhei tantos sustos provocados por outros motociclistas como agora. Nunca tive de me chatear tantas vezes, a sério, com alguém que simplesmente não teve o cuidado ou a sensibilidade de perceber que não está sozinho na estrada. Ultrapassagens apertadas, mudanças de trajetória sem pensar em quem está ao lado, manobras que nos obrigam a travar ou a desviar. Não é uma questão de andar depressa ou devagar, de ter uma moto mais potente ou mais pequena. É uma questão de respeito.

Talvez seja inevitável quando uma comunidade apaixonada começa a transformar-se também num enorme grupo de utilizadores, mas quem cá está há muito tempo, como eu, sente essa mudança diariamente.

É claro que o ambiente também é penalizado pela falta de capacidade de adaptação que o país tem face a este rápido crescimento. Se já era mau... agora está bem pior. Da qualidade das estradas às infraestruturas necessárias para garantir a segurança destes veículos, tudo precisa evoluir. É verdade que o nível de responsabilidade de quem anda todos os dias de moto também precisa de um refresh, especialmente com o aumento das 125 nos serviços de entregas, mas estamos longe de ter este tema como prioridade. E se calhar devíamos. Nos primeiros seis meses do ano a GNR registou mais acidentes, com mais vítimas, especialmente dentro das localidades.

Isto devia fazer-nos pensar. Não apenas sobre quem conduz, mas sobre o sistema inteiro.

Se queremos mais motos nas cidades, precisamos de melhores condições para as motos. Se queremos novos motociclistas, precisamos de melhor preparação, e se queremos que as duas rodas sejam uma verdadeira solução de mobilidade, precisamos também de preservar uma cultura de respeito entre quem as utiliza. Talvez tenhamos de aceitar que a moto que para nós é paixão, para outros é simplesmente trabalho, e isso não os torna menos legítimos para estar na estrada, mas também não os dispensa de aprender as regras (escritas e não escritas) de uma comunidade que merece todo o respeito.

A estrada é de todos, mas entre motociclistas talvez ainda devêssemos conseguir ser um pouco mais uns pelos outros.

Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Agosto de 2026

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