Opinião | 09-09-2026 07:00

Rodeos, touradas, vacinas e uma ponte que é uma maravilha

Emails do outro mundo

Sagaz Manuel Serra d’Aire

Sagaz Manuel Serra d’Aire

Já não se via um sururu por causa de eventos no CNEMA, o centro de exposições de Santarém, desde que nos anos 90 alguém se lembrou de ali organizar rodeos brasileiros na Feira da Agricultura (vistos como uma heresia pelos puristas aficionados das largadas, picarias e mesas de tortura). E, posteriormente, já nos anos 2000, quando a organização da mesma Feira da Agricultura decidiu realizar touradas numa praça desmontável, para fazer concorrência às que se realizavam na mesma altura na praça de touros da cidade, promovidas pela Câmara de Santarém, na altura presidida pelo inefável Moita Flores. Foi um duelo em pontas que fez correr muita tinta.
Desde aí, já lá vão quase vinte anos, tem continuado a ser discutível a qualidade de algumas actividades e espectáculos realizados no CNEMA, mas sem suscitar tanto alarido. Porque gostos não se discutem, mesmo se envolverem eventos de tunning com concursos de miss t-shirt molhada, congressos religiosos ou ajuntamentos de adolescentes vestidos de figuras de animação japonesa. Daí o meu espanto ao saber que um encontro que vai ter como protagonista um activista anti-vacinas, chamado Gustavo Santos, teve honras de debate numa reunião de câmara em Santarém.
Quem levantou a lebre foi o vereador socialista Pedro Ribeiro, que criticou o facto de um espaço pertencente a uma entidade de que a câmara é accionista possa servir para actividades que promovem a desinformação e propaganda anti-ciência. Uma posição que me parece exagerada e tardia, tendo em conta que o que não tem faltado naquele espaço ao longo dos anos é actividades de propaganda, seja de partidos políticos (e Pedro Ribeiro já participou em algumas), seja de entidades religiosas que operam no mercado da salvação das almas.
O vereador argumenta que a mensagem passada pela malta anti-vacinas contraria tudo o que é verdade científica comprovada e que a difusão desse tipo de discurso pode colocar em causa a imunidade de grupo e a saúde pública, originando o reaparecimento de doenças praticamente erradicadas e inevitáveis mortes. É difícil não concordar com essa linha de pensamento, mas, em nome da igualdade de oportunidades, tenho de lembrar que as teses defendidas por outras entidades políticas e religiosas que têm usado o CNEMA para venderem o seu peixe também não foram inócuas para a Humanidade ao longo dos séculos. E ninguém se tem ralado muito. Por isso, é deixar o Gustavo andar entretido a pregar aos convertidos, porque quem tem dois dedos de testa está imune a essa praga.
O concurso das Novas 7 Maravilhas de Portugal está ao rubro e com alguns tesouros da nossa região na corrida pela distinção. Mas nestas coisas de escolher há sempre injustiças e uma das mais flagrantes é a da Ponte da Chamusca, que tu bem evocas no teu último escrito. Para além do valor arquitectónico da estrutura, é de louvar também a resiliência da travessia face à erosão do tempo. Um caso raro de longevidade e vigor com 117 anos, vacinada há muito contra as promessas dos políticos.
Saudações do
Serafim das Neves

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