Opinião | 16-09-2026 18:00

A valorosa Ordem da Cagada Autárquica e o fim da poesia pícara às mãos da videovigilância florestal da GNR

Emails do outro mundo

Arejado Serafim das Neves

Arejado Serafim das Neves
Quando, já lá vão mais de cinco anos, o então presidente da Câmara do Entroncamento, o simpático, afável e sorridente, Jorge Faria, mandou encerrar, com urgência, o Jardim-de-Infância Sophia de Mello Breyner Andresen, por risco iminente de derrocada, os que o construíram e os que o mandaram construir, não disseram, nem ai, nem ui. Calaram-se que nem ratos, o que revela a confiança que tinham, no trabalho feito.
Na altura, lembrei-me da lenda do arquitecto Afonso Domingos que dirigiu o fecho da abóbada da sala do capítulo do Mosteiro da Batalha. Escreveu Alexandre Herculano, nas Lendas e Narrativas, que perante as dúvidas de alguns sobre a qualidade do trabalho, ele se sentou três dias e três noites, debaixo da mesma, em jejum, tendo dito, no final, antes de morrer, a frase: “a abóboda não caiu, a abóboda não cairá”.
Ao fim deste tempo todo, o Jardim-de-Infância não caiu, mas também ninguém se sentou lá num banquinho, como o velho arquitecto, para garantir que não cairá. E o que aquilo deve ter abanado durante a depressão Kristin.
Já perdi a conta às vezes que foi decidido demolir o edifício, a última das quais há uma ou duas semanas. Mas não há meio de mandarem aquilo abaixo. E o facto de nunca lá terem colocado câmaras de vídeo vigilância, mostra bem a fezada que têm numa eventual derrocada.
Também ninguém acredita que, depois do encerramento, houvesse pais que deixassem os seus filhos voltar a ter aulas ali. Mas dá sempre jeito um caso daqueles. Porque justifica a encomenda de mais estudos, avaliações, projectos e projecções, animando a economia e assegurando trabalho a gabinetes e mais gabinetes técnicos especializados. E essa é a beleza da política. Fazer render o peixe, justificar mais uns gastos. O que não é feito, também dá dinheiro a ganhar a muita gente. Dá ou não dá?!!
Esta sucessão de doutas e bem fundamentadas decisões, leva-me a propor, que deixem ficar a coisa como está, e que a classifiquem como monumento de interesse concelhio. E, já agora, atribuam a medalha Arquitecto Afonso Domingues, aos professores, funcionários e crianças que, durante anos, ali tiveram aulas com risco de ficarem soterrados. E imponham a ordem da Cagada Autárquica, digamos assim, aos políticos envolvidos…sem excepção!
O major Claúdio Lopes, chefe do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente do Comando Territorial de Coimbra da GNR, alertou-me para algo que desconhecia. Disse ele na entrevista a O MIRANTE, que, quem vive, ou vai passear na floresta, está debaixo de vigilância 24 horas por dia.
Como amante da comunhão com a natureza, não tinha essa percepção e confesso que me senti envergonhado pelas cenas caricatas, digamos assim, que devo ter feito em determinadas alturas de passeios pela mata, e que estão agora nos arquivos das imagens filmadas pelas câmaras de videovigilância e drones, das autoridades.
É também o fim da poesia rústica e fescenina, que eu cultivava, digamos assim, na senda de grandes nomes como Bocage, Augusto Gil e outros. Debaixo de tal vigilância, alguma vez será possível voltar a escrever coisas como: “Que bom cagar na floresta/Liberta-se o pensamento/ O badalo cheira as flores/ os tomates dançam ao vento.”??!!
Saudações florestais
Manuel Serra d’Aire

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