A valorosa Ordem da Cagada Autárquica e o fim da poesia pícara às mãos da videovigilância florestal da GNR
Arejado Serafim das Neves
Arejado Serafim das Neves
Quando, já lá vão mais de cinco anos, o então presidente da Câmara do Entroncamento, o simpático, afável e sorridente, Jorge Faria, mandou encerrar, com urgência, o Jardim-de-Infância Sophia de Mello Breyner Andresen, por risco iminente de derrocada, os que o construíram e os que o mandaram construir, não disseram, nem ai, nem ui. Calaram-se que nem ratos, o que revela a confiança que tinham, no trabalho feito.
Na altura, lembrei-me da lenda do arquitecto Afonso Domingos que dirigiu o fecho da abóbada da sala do capítulo do Mosteiro da Batalha. Escreveu Alexandre Herculano, nas Lendas e Narrativas, que perante as dúvidas de alguns sobre a qualidade do trabalho, ele se sentou três dias e três noites, debaixo da mesma, em jejum, tendo dito, no final, antes de morrer, a frase: “a abóboda não caiu, a abóboda não cairá”.
Ao fim deste tempo todo, o Jardim-de-Infância não caiu, mas também ninguém se sentou lá num banquinho, como o velho arquitecto, para garantir que não cairá. E o que aquilo deve ter abanado durante a depressão Kristin.
Já perdi a conta às vezes que foi decidido demolir o edifício, a última das quais há uma ou duas semanas. Mas não há meio de mandarem aquilo abaixo. E o facto de nunca lá terem colocado câmaras de vídeo vigilância, mostra bem a fezada que têm numa eventual derrocada.
Também ninguém acredita que, depois do encerramento, houvesse pais que deixassem os seus filhos voltar a ter aulas ali. Mas dá sempre jeito um caso daqueles. Porque justifica a encomenda de mais estudos, avaliações, projectos e projecções, animando a economia e assegurando trabalho a gabinetes e mais gabinetes técnicos especializados. E essa é a beleza da política. Fazer render o peixe, justificar mais uns gastos. O que não é feito, também dá dinheiro a ganhar a muita gente. Dá ou não dá?!!
Esta sucessão de doutas e bem fundamentadas decisões, leva-me a propor, que deixem ficar a coisa como está, e que a classifiquem como monumento de interesse concelhio. E, já agora, atribuam a medalha Arquitecto Afonso Domingues, aos professores, funcionários e crianças que, durante anos, ali tiveram aulas com risco de ficarem soterrados. E imponham a ordem da Cagada Autárquica, digamos assim, aos políticos envolvidos…sem excepção!
O major Claúdio Lopes, chefe do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente do Comando Territorial de Coimbra da GNR, alertou-me para algo que desconhecia. Disse ele na entrevista a O MIRANTE, que, quem vive, ou vai passear na floresta, está debaixo de vigilância 24 horas por dia.
Como amante da comunhão com a natureza, não tinha essa percepção e confesso que me senti envergonhado pelas cenas caricatas, digamos assim, que devo ter feito em determinadas alturas de passeios pela mata, e que estão agora nos arquivos das imagens filmadas pelas câmaras de videovigilância e drones, das autoridades.
É também o fim da poesia rústica e fescenina, que eu cultivava, digamos assim, na senda de grandes nomes como Bocage, Augusto Gil e outros. Debaixo de tal vigilância, alguma vez será possível voltar a escrever coisas como: “Que bom cagar na floresta/Liberta-se o pensamento/ O badalo cheira as flores/ os tomates dançam ao vento.”??!!
Saudações florestais
Manuel Serra d’Aire


