A gastronomia ribatejana a dar que falar
Almeirim está para a sopa da pedra como a tourada para os aficionados. Depois do festival que decorreu recentemente, os restaurantes fecharam durante vários dias. Passámos por lá algumas vezes e as filas metiam medo ao susto. Um elogio à gastronomia ribatejana que beneficia do facto de o Ribatejo ficar a meio caminho de quase tudo, para o bem e para o mal.
“Até aos 7 faz-se, a partir dos 7 anos lembra-se”. A frase é do reportório do banho turco que na última semana pratiquei em horários mais diversificados do que o habitual, daí que tenha ficado mais sensível às conversas quando a ideia é mesmo desligar.
Almeirim está para a sopa da pedra como a tourada para os aficionados. Depois do festival que decorreu recentemente, os restaurantes fecharam durante vários dias. Passámos por lá algumas vezes e as filas metiam medo ao susto. Não há nada na região que seja tão lucrativo e que atraia tanta gente de fora do concelho e do distrito. A gastronomia é bandeira de muitos concelhos do país, de norte a sul. Nós temos vantagem porque ficamos a meio caminho. Não admira, por isso, que recentemente, ao almoçarmos num restaurante às portas de Santarém, tivéssemos encontrado a comitiva dos Xutos & Pontapés, que iam actuar nesse dia a Viseu, e a equipa completa dos Resistência que também iam a actuar a norte no concelho de Freamunde.
Ficamos ainda a saber que alguns deles, quando chegam, já dão beijinhos a quem os recebe, o que prova que a fama já vem de longe e conta a favor da hospitalidade que ajuda a preservar tradições.
Sou um amante das coisas doces. Adoro tigeladas e gostava de ver os pasteleiros do doce mais famoso de Abrantes rendidos à ideia das miniaturas, como já se usa nos pastéis de nata e nos pampilhos. Aquela mão cheia de ovos e açúcar e canela era o doce preferido da minha mãe. Nos últimos anos de vida oferecia-lhe, como mimo, uma tigelada por semana para não agravar a diabetes. Agora sou eu que não resisto nem que seja cortada ao meio. Fica aqui o apelo aos fabricantes para que o consumo seja mais apelativo.
Uma das minhas escritoras favoritas é Almudena Grandes (Madrid 1960 - Novembro 2021). Morreu com 61 anos mas deixou uma obra que vai perdurar. Curiosamente, o seu primeiro êxito literário é de 1989 com “As Idades de Lulu”, um livro erótico para todas as idades. Foi o primeiro e o último. Alguns dos seus romances posteriores têm o génio da sua escrita, mas nunca mais publicou um romance erótico que, apesar das várias reedições, é muito raro encontrar em alfarrabistas. Leila Slimani é de outro país e de outra geração, mas é igualmente uma romancista genial. Curiosamente, o seu primeiro sucesso editorial também foi um romance erótico (“No Jardim do Ogre”) publicado em França em 2014 e em Portugal mais recentemente onde já vai na sexta edição. Depois deste já saíram vários romances, na sua grande maioria premiados e elogiados pela crítica. “Canção Doce” é um dos romances que melhor retrata a crueldade do mundo em que vivemos, onde o trabalho e o êxito social fazem com que a generalidade das pessoas bem-sucedidas esqueçam, ou ignorem, os valores sagrados da vida.
Não é de somenos importância o erotismo na escrita de grandes nomes da literatura. A inclassificável Agustina Bessa Luís publicou em 1960 “Ternos Guerreiros”, que não sendo um livro erótico contém uma escrita de grande sensualidade que nunca desapareceu da sua obra de uma centena de livros. “Ternos Guerreiros” está neste momento a ser adaptado para cinema, o que diz bem da sua importância na obra da autora, na altura em início de carreira.
A Região de Turismo do Alentejo e Ribatejo prometeu fazer da região ribatejana a capital da literatura, aparentemente à boleia de José Saramago, o nosso Nobel, que nasceu na Azinhaga, mas tem na sua Obra marcas de uma longa vivência em toda a região. Depois de uma primeira iniciativa o projecto parece ter borregado. É pena. Mas começa a ser sina. O Ribatejo tem a fama e os outros têm o proveito. Não aproveitar o êxito e a fama de José Saramago e do Nobel, que é único, é a mesma coisa que deixar passar a água do Tejo a caminho do mar da palha e não a aproveitar para regar os campos e fomentar as hortas nos campos da Lezíria. JAE.


