Opinião | 23-09-2026 21:00

A urgência de executar obra antes do apocalipse e o canto da sereia em que quase todos caem

Emails do outro mundo

Bucólico Manuel Serra d’Aire

Bucólico Manuel Serra d’Aire
Acertaste no alvo quando concluíste assertivamente, na tua última dissertação, que o que não é feito também dá dinheiro a ganhar a muita gente. Eu diria mais: essa realidade, em Portugal, tem produzido mais milionários que o Euromilhões. Cada projecto que cai nesse saco sem fundo das obras eternamente adiadas é um manancial para o ecossistema onde vivem especialistas em estudos e consultores de variadíssimas competências. Imagina, por exemplo, quanto é que já não rendeu o novo aeroporto só nos últimos 25 anos, desde que andou a ser badalado para Benavente, Ota, Montijo e até Santarém, sem que, efectivamente, aterrasse até ao dia de hoje em lado algum. O mesmo se poderia dizer da linha de alta velocidade e de outros mastodônticos empreendimentos.
Depois das plantações de canábis medicinal e das centrais fotovoltaicas, o nosso território passou agora também a ser muito procurado para os chamados data centers, projectos de milhões que não sabemos se chegarão a concretizar-se, ou se vão ter o mesmo destino que as plantações de canábis para fins medicinais, que, pelos vistos, se esfumaram. Mas a expectativa dos data centers, essa, está criada e já há, obviamente, gente a facturar em estudos, projectos e outras diligências.
Para além dos projectos que, mesmo não sendo concretizados, rendem balúrdios, há também as obras que são concretizadas e que, passados anos, nalguns casos décadas, voltam a render. O caso que mencionas no Entroncamento, do jardim de infância construído já este século que pelos vistos vai ser demolido, alegadamente devido a fragilidades técnicas do projecto e à fraca qualidade da construção, para ser edificado um novo no mesmo sítio, é um caso paradigmático. Ou melhor, um autêntico fenómeno do Entroncamento, pago a peso de ouro…
Espero que desta vez a construção seja efectuada nas devidas condições e com alguma celeridade, a tempo de ainda poder entrar no caderno das obras feitas quando chegar a altura da campanha eleitoral. Aliás, é bom que os nossos governantes e autarcas se apressem se querem mostrar obra feita, porque um investigador insuspeito que trabalhou para um dos conglomerados da Inteligência Artificial veio alertar recentemente que a dita IA é bem capaz de dar cabo da Humanidade até ao final desta década, sem sequer precisar da ajuda dos lunáticos que actualmente mandam nisto tudo. Por isso, senhores políticos, se querem ver o nome numa lápide inauguracional, é favor de dar a corda aos sapatos, porque nunca se sabe se o mundo não acaba antes do final deste mandato.
Em Santarém, um presidente de junta eleito pelo PS desvinculou-se do partido e passou a independente, por ter descoberto, ao fim de alguns anos de enlace, que não queria estar sujeito a orientações partidárias. Percebo perfeitamente. Quem nunca se rendeu ao canto da sereia, até se aperceber que, afinal, o que tinha ‘comprado’ era uma criatura mandona e rezingona que, ainda por cima, roncava como uma debulhadora mecânica? Quem nunca, que atire a primeira pedra!
Cumprimentos apocalípticos do
Serafim das Neves

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