Opinião | 29-09-2026 21:18

O que faz Fátima? E o que fazem com Fátima? Fé, negócio e poder

O que faz Fátima? E o que fazem com Fátima? Fé, negócio e poder

Uma pessoa acende uma vela por alguém doente. Outra vende o postal que leva uma história para longe. Outra contesta a influência da Igreja. Um papa pronuncia uma oração perante o mundo. Todas participam, de maneiras diferentes, na vida de Fátima. Nenhuma tem o mesmo poder para definir o que ela significa.

Enquanto uns olhavam para o céu

13 de outubro de 1917. Chovia na Cova da Iria, uma zona de campos perto de Fátima. A multidão não arredava pé. Algumas pessoas tinham vindo descalças. Outras chegavam de carroça, bicicleta ou automóvel. Havia quem se ajoelhasse na lama.Esperavam um sinal anunciado por três crianças. O jornalista Avelino de Almeida estava lá para contar aos leitores de O Século o que acontecesse.

As crianças eram Lúcia dos Santos, de dez anos, e os seus primos Francisco e Jacinta Marto, de nove e sete. Viviam em Aljustrel, uma aldeia próxima, e guardavam rebanhos. Disseram que Nossa Senhora - a Virgem Maria da tradição católica - lhes aparecera pela primeira vez em 13 de maio de 1917. Nos meses seguintes, voltaram a falar de aparições. Uns acreditaram; outros duvidaram; muitos decidiram ir ver.

Quando a chuva parou, a multidão voltou-se para o Sol. Almeida descreveu-o como um disco de prata fosca, para o qual se podia olhar. Ouviu gritos de «Milagre!». Algumas pessoas disseram que o Sol «bailara»; outras falaram de cores, de uma roda de fogo ou da impressão de que se aproximava da Terra. Nem todos contaram a mesma coisa. A reportagem regista o que foi dito e observado, sem estabelecer a causa do que aconteceu.

Almeida ouviu ainda Lúcia anunciar que a guerra terminara e que os soldados portugueses regressariam. A guerra não tinha terminado. Só acabaria em novembro de 1918. Para uma família à espera de um filho ou de um marido, a notícia podia significar muito. Podia também criar uma esperança que os acontecimentos ainda não confirmavam.

O jornalista olhou depois para o que se passava à volta. Vendedores ambulantes ofereciam postais com os retratos das crianças. Outros bilhetes mostravam um soldado português a esperar o auxílio da Virgem para a salvação da pátria. Entre os peregrinos, pessoas cegas e com lepra pediam esmola.

Antes de a Igreja reconhecer as aparições, a fé, a aflição, a guerra e a oportunidade de fazer negócio já se encontravam na Cova da Iria. Enquanto uns procuravam um sinal no céu, outros compravam uma imagem para levar para casa.

Ilustração contemporânea inspirada na reportagem de Avelino de Almeida (2026)

O país que rodeava aquelas crianças

Portugal participava na Primeira Guerra Mundial. Soldados do Corpo Expedicionário Português combatiam em França; as famílias esperavam cartas. Em casa, os preços subiam e faltavam bens

necessários. Foi por isso que uma afirmação sobre o regresso dos soldados podia atravessar a multidão com tanta força.

Havia também um conflito político e religioso. Em 1910, uma revolução pusera fim à monarquia e instaurara a República. Até então, o catolicismo era a religião oficial. A Igreja tinha uma posição privilegiada na vida pública, e o Estado intervinha em assuntos religiosos.

Em 1911, a República aprovou a separação entre o Estado e as religiões. Deixou de haver religião oficial; a lei reconheceu a liberdade de consciência e de culto. Mas impôs também regras à organização da vida religiosa e inventariou bens da Igreja. Para muitos republicanos, era preciso limitar um poder antigo. Para muitos católicos, o Estado estava a interferir na sua fé. O conflito chegou à rutura das relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé, a autoridade central da Igreja Católica.

Separar Estado e Igreja não fez desaparecer a religião da vida das pessoas. Tampouco resolveu, por si só, quanto poder cada instituição devia ter sobre a outra.

Em dezembro de 1917, menos de dois meses depois da reportagem de Almeida, o major Sidónio Pais liderou uma revolta militar em Lisboa. Houve combates. O governo de Afonso Costa caiu, o Presidente Bernardino Machado foi afastado e partiu para o exílio. Sidónio tomou o poder pela força e governou de forma autoritária.

Em 1918, o seu governo retirou algumas das regras da lei de separação que a Igreja mais contestava. Portugal e a Santa Sé retomaram relações diplomáticas. O catolicismo não voltou a ser a religião oficial. Mudou a relação entre os dois poderes, num país que continuava a discutir o lugar da religião na vida pública.

Teria alguém imaginado o negócio?

Quase sessenta anos antes de Fátima, em 1858, Bernadette Soubirous relatara aparições em Lourdes, França. Foi interrogada. Chegaram peregrinos e surgiram relatos de curas. A Igreja reconheceu as aparições em 1862.

Lourdes mostrava que um relato podia transformar um lugar e atrair gente de longe. Não prova que alguém tenha criado Fátima segundo um plano. Para investigar essa hipótese, seria preciso seguir os terrenos, os investimentos, a divulgação e as decisões institucionais: quem fez o quê, em que momento e quem beneficiou? É possível que tenham existido intenções diferentes em fases diferentes.

Lourdes também fazia parte do mundo em que o relato das crianças foi ouvido. A quem acreditava, podia oferecer uma referência. A quem duvidava, podia suscitar a pergunta: não estaria a ouvir uma história semelhante a outra já conhecida?

As próprias crianças foram avaliadas de maneiras opostas. Alguns críticos viam na sua vida rural e na pouca escolaridade, motivos para desconfiar. Alguns defensores entendiam que crianças assim não poderiam inventar uma história tão elaborada. Como observa o historiador Rui Ramos, a alegada simplicidade dos videntes serviu conclusões contrárias.

Quem é considerado uma testemunha credível? Uma criança? Um jornalista? Um bispo? E o que muda quando uma dessas pessoas passa a interpretar a palavra das outras?

Quando a Igreja passou a organizar o lugar

A primeira capelinha foi construída por iniciativa popular. Depois, com a chegada de cada vez mais peregrinos, a Igreja ganhou um papel crescente na organização da Cova da Iria. Em 1921, o bispo de Leiria interveio no uso do espaço e autorizou ali a celebração da missa. Em 1922, constituiu uma comissão para investigar as aparições e começou a publicar-se a Voz da Fátima. Só em 1930 declarou dignas de crédito as visões das crianças.

Essas decisões deram condições para acolher os peregrinos. Deram também à Igreja meios para regular práticas e fazer chegar mais longe a sua interpretação. Organizar um lugar é, em parte, decidir o que nele se pode fazer e quem tem autoridade para o explicar.

Os críticos também participaram nesta história, embora de outra forma. Jornais republicanos contestaram as aparições e ajudaram a divulgar a notícia. Mais tarde, em 1955, Tomás da Fonseca atacou a relação entre Fátima e o poder político da ditadura. A sua pergunta não era apenas «o que viram as crianças?». Era também «o que fizeram os governantes e as instituições com Fátima?».

A contestação não confirma nem desmente as aparições. Mostra que uma história pode alcançar novos públicos quando é discutida e combatida.

O que cabe nas palavras «eu vi»?

Em 2000, Joseph Ratzinger — então cardeal responsável pela doutrina da Igreja e, mais tarde, papa Bento XVI — escreveu que uma «visão interior» não é uma fotografia do além. Na sua leitura teológica, uma experiência pode ter origem transcendente e, ainda assim, ser contada através das capacidades e dos limites humanos de quem a vive.

Há aqui uma pergunta antropológica: como se conta uma experiência para a qual não se possui uma linguagem inteiramente nova? Lúcia, Francisco e Jacinta conheciam orações e imagens religiosas. Quem os ouviu também trazia as suas imagens, dúvidas e expectativas.

O tempo acrescentou outras camadas. Lúcia escreveu as duas primeiras partes do chamado «segredo» em 1941 e a terceira em 1944; esta última foi publicada em 2000. O relato de uma experiência atribuída a 1917, os textos escritos décadas depois e as interpretações feitas à luz de acontecimentos posteriores precisam de ser distinguidos.

Uma promessa não termina à chegada

Alguém pede ajuda perante uma doença e promete ir a Fátima. Pode guardar a promessa em segredo, contar à família, pedir companhia para a viagem ou levar um objeto para quem ficou em casa. O que começou num momento de aflição passa a organizar dias de caminho e a envolver outras pessoas.

E depois do regresso? A pessoa sentiu alívio? Continua à espera? Encontrou companhia para uma dor que antes vivia sozinha? Não há uma resposta igual para todos, e seria preciso ouvir quem regressou para perceber o que a peregrinação fez na sua vida.

O antropólogo Marcel Mauss estudou como dar, receber e retribuir criam relações e obrigações duradouras. Uma promessa pode ser observada nessa direção, sem reduzir a experiência de cada pessoa a uma fórmula.

Pensemos numa vela. Foi produzida e vendida; alguém pagou por ela; alguém pode acendê-la por uma pessoa amada. O preço não explica sozinho a promessa. A promessa também não faz desaparecer o preço.

Quem vive do trabalho criado pela peregrinação? Como se estabelecem os preços? Onde passa a fronteira entre ganhar a vida a acolher pessoas e aproveitar-se de alguém vulnerável? O negócio não é um pormenor embaraçoso a esconder: faz parte da história que é preciso investigar.

Quando é que a confiança se transforma em obediência?

Um relato é contado de novo. Encontra imagens que as pessoas reconhecem. Ganha lugares, rituais e pessoas autorizadas a interpretá-lo. Pode ajudar alguém a atravessar uma perda, criar solidariedade e dar palavras a quem não as encontrava.

O mesmo processo também pode ser usado para provocar medo, calar dúvidas e obter poder ou dinheiro. Há manipulação quando alguém apresenta a sua interpretação como a única possível e usa a confiança recebida para impedir os outros de perguntar ou escolher.

Numa teocracia, uma autoridade religiosa pode dispor também do poder do Estado para impor a sua interpretação. Fátima não é uma teocracia. Mas a pergunta sobre a liberdade das pessoas vale aqui como vale noutros lugares: quando uma instituição reúne milhões em torno de uma esperança, o que faz com a confiança que recebeu?

A Igreja Católica ganhou uma enorme autoridade para falar publicamente de Fátima. Com ela ganhou uma responsabilidade igualmente grande: acolher quem procura ajuda, responder pelo que diz e faz, e deixar espaço real para acreditar, duvidar, discordar e agir.

Ilustração editorial sobre a disputa pela palavra das pessoas; as figuras representam posições de autoridade, não os fiéis no seu conjunto.

De Fátima ao resto do mundo

Fátima não é o único lugar onde um relato de aparição passou a ter efeitos muito para lá dos seus primeiros ouvintes.

Em Guadalupe, no México, a tradição remete para Juan Diego, um homem indígena que relatou um encontro com Nossa Senhora em 1531. João Paulo II canonizou-o naquele santuário, em 2002, e apresentou Guadalupe como parte de uma história de encontro entre cristianismo e cultura indígena, ligada também à identidade mexicana.

Em Lourdes, João Paulo II ligou a data das aparições ao Dia Mundial do Doente, celebrado pela primeira vez ali em 1993. Em Kibeho, no Ruanda, relatos de aparições iniciados em 1981 foram reconhecidos pelo bispo local em 2001. Depois do genocídio contra os tutsis, muitos leram as advertências associadas a Kibeho como um presságio. Em 2014, o papa Francisco invocou Nossa Senhora de Kibeho ao pedir reconciliação e reconstrução para o país.

Estas histórias ganharam usos públicos diferentes. Quando um papa empresta a sua voz a um lugar, pode tornar audível um sofrimento distante. Pode também tornar uma interpretação tão forte que outras vozes deixem de ser escutadas.

Fátima teve igualmente uma vida política internacional. No século XX, referências à Rússia presentes na sua mensagem alimentaram leituras anticomunistas. O culto acompanhou emigrantes portugueses e circulou pelos territórios do império, em contextos onde a fé se cruzava com a pertença nacional.

Em 25 de março de 2022, depois da invasão da Ucrânia, o papa Francisco consagrou a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Consagrar, neste caso, significa confiar esses países à proteção de Maria numa oração pública. A referência à Rússia retomava um pedido atribuído a Nossa

Senhora nos textos escritos por Lúcia. O gesto realizou-se em Roma e, em simultâneo, na Cova da Iria, conduzido ali pelo representante do papa, o cardeal Konrad Krajewski.

Para quem participou, a oração podia ser um pedido de paz ou uma forma de manifestar solidariedade. Também projetava mundialmente uma maneira de falar da guerra. Rezar não dispensa compreender o conflito, escutar quem o vive e decidir o que fazer perante ele. Quanto maior é a voz de quem conduz a oração, maior é a responsabilidade de não transformar a esperança dos outros numa resposta que os dispense de pensar e escolher.

Uma pessoa acende uma vela por alguém doente. Outra vende o postal que leva uma história para longe. Outra contesta a influência da Igreja. Um papa pronuncia uma oração perante o mundo. Todas participam, de maneiras diferentes, na vida de Fátima. Nenhuma tem o mesmo poder para definir o que ela significa.

De Fásma a outros lugares do planeta, quem fala em nome da esperança de milhões e que liberdade deixa a cada um para ouvir, discordar e agir?

Alexandra Azevedo de Carvalho

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