Opinião | 01-10-2026 07:00

A importância de merecer fazer parte da toponímia da cidade de Santarém com um Dr. atrás do nome

A importância de merecer fazer parte da toponímia da cidade de Santarém com um Dr. atrás do nome

De Jorge de Sena a Pina Bausch, a propósito de nomes de ruas e da falta de jeito dos responsáveis pela toponímia das cidades (com uma nota final sobre a forma moderna de receber pívias).

A história de uma terra pode estudar-se/descobrir-se na sua toponímia se esse trabalho estiver entregue a pessoas que entendem do assunto. O episódio em Lisboa com a inauguração da rua Pina Bausch é um bom pretexto para trazer aqui este tema que entendo da maior importância para a cultura local.
Deixo o caso Pina Bausch para os lisboetas mas não é por acaso que aproveito a novela para escrever a crónica da semana.
Pina Bausch é uma das mais marcantes figuras da cultura universal do nosso tempo. O filme/documentário de Wim Wenders sobre Pina Bausch, estreado em França em 2011, com recurso à tecnologia 3D, possibilitou ao director alemão filmar a dança da grande coreógrafa alemã de forma perfeita. “Pina”, simplesmente, é o nome da obra que homenageia com beleza e maestria a arte de uma mulher que transformou o ballet contemporâneo.
Pude vê-la trabalhar num único espectáculo e depois fiquei rendido não só ao documentário como a um livro de Claudia Galhós que é um ensaio sobre a sua Obra, e para já o único livro publicado em língua portuguesa sobre a vida e o seu trabalho. A sua cultura alemã pode muito bem ser confundida com a admiração que ela tinha por Portugal e pela cultura portuguesa.
Pina Bausch (1940–2009) manteve uma relação profunda com Portugal. Dar-lhe um nome de rua em Lisboa é uma homenagem mais do que merecida, que devia ter sido acompanhado por outras iniciativas que lembrassem o extraordinário percurso da coreógrafa, mas também o valor da sua grandeza como ser humano. É bom lembrar que o bailado e o teatro definham nas salas de espectáculos porque o Governo não investe o suficiente na produção cultural das grandes companhias independentes.
O que deu polémica em Lisboa foi terem gravado na pedra “dançarina” em vez de bailarina.

Imaginem agora em Santarém uma rua com o nome de um dos maiores poetas de sempre em língua portuguesa a quem identificam com um Dr. antes do nome. Falo de Jorge de Sena, que dá nome a uma rua da cidade. Quem teve a responsabilidade de gravar este nome apresentando-o com um Dr., ou era analfabeto ou não tinha qualquer responsabilidade na gestão da toponímia da cidade. Jorge de Sena é uma figura que deve ser homenageada por ser um dos maiores camonistas, autor de um grande romance, de um conjunto de contos do melhor da nossa literatura, autor de uma poesia que muita gente ainda terá que descobrir porque faz parte do nosso património cultural. Para além de ter uma vida profissional prejudicada pelo facto de ser antissalazarista, o que o obrigou a ir dar aulas para o Brasil e, mais tarde, a fixar-se nos EUA, o convite para discursar no dia 10 de Junho de 1977, durante comemorações do Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas na Guarda, não compensa em quase nada a dívida que Portugal nunca saldou, o quanto o escritor pensava sobre a importância de Camões, a identidade portuguesa e o papel das comunidades lusas dispersas pelo mundo. O seu discurso teve uma repercussão nunca mais vista e sentida noutras comemorações do Dia de Portugal, nomeadamente quando falou sobre a cultura e a pátria para além do território.
Jorge de Sena era uma figura polémica, mas não vivia das polémicas, trabalhava desalmadamente na sua Obra e no estudo da Obra de Camões. No meio disto tudo tinha que trabalhar como professor para sustentar uma família numerosa já que teve 9 filhos. Mécia de Sena foi companheira inseparável em todos os momentos e a certa altura a grande secretária do escritor, responsável pela publicação de muitos dos seus livros após a sua morte. Tive o privilégio de visitar Araraquara, uma cidade a cerca de 300 quilómetros de S. Paulo, onde pela primeira vez dormi num hotel fazenda. Visitei a sua antiga escola, mas já num tempo em que a maioria dos professores só tinha ouvido falar do escritor e professor e pouco adiantaram sobre a sua personalidade e a sua vivência numa cidade a muitos quilómetros de S. Paulo, onde tudo acontecia, e acontece ainda hoje, por mais que o Rio de Janeiro continue a ser a cidade maravilhosa.

Nota 1: não escrevo esta crónica para encher chouriços ou mostrar conhecimento. Escrevo para apelar à Câmara de Santarém que mande alterar a placa e faça justiça ao autor de Sinais de Fogo.
Nota 2: recentemente li um dos muitos textos de João Leite (presidente da Câmara de Santarém) em que tratava João Moutão (presidente da Universidade Politécnica) por Professor Doutor fora do protocolo e num texto onde os títulos não acrescentavam nada à informação. João Leite costuma ser tratado por alguns sectores da vida intelectual da cidade por Mestre Doutourando, o que é uma verdadeira pívia que lhe fazem e de que ele não tem culpa. Só esperamos que seja mesmo assim, que esta questão dos títulos seja guardada para as academias e para os académicos analfabetos que ajudam a Câmara de Santarém a tratar da toponímia, que no caso de Jorge de Sena foi, e continua a ser, exemplar. JAE.

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