João Moura a farmar aura e o incómodo cantar de galo na quietude da selva urbana
Ciclópico Manuel Serra d’Aire
Ciclópico Manuel Serra d’Aire
Às más línguas que dizem que não há políticos na região com dimensão internacional apenas digo isto: ponham os olhos no João Moura de Ourém (não confundir com o cavaleiro tauromáquico). É verdade que os ecos da sua acção governativa enquanto secretário de Estado da Agricultura ainda não chegaram a locais recônditos do mundo como a Papua Nova Guiné ou as ilhas Aleutas, mas já causaram brado na vizinha Galiza. E, como em tudo na vida, tem que se começar por algum lado.
A mais recente façanha do expedito governante, que, além de outros atributos reconhecidos, também é autarca na Assembleia Municipal de Ourém, está relacionada com a castanha. E, dada a matéria-prima, o episódio só podia acabar em castanhada. João Moura ouviu das boas da Asociación Galega das Castañas e dos Soutos, que até exigiu a sua demissão, supostamente porque o governante insinuou que uma campanha internacional para reconhecer a castanha como fruto fresco seria uma manobra para captar fundos da PAC - Política Agrícola Comum.
“A castanha não é um fruto seco!” - vociferou em tom exaltado a associação galega, que podia muito bem ter acrescentado que a castanha não só não é um fruto seco como até fica melhor regada com uma boa água-pé. Seja como for, a verdade é que a associação galega das castanhas proporcionou a João Moura um lugar na História da política nacional ao fazer dele o primeiro governante, que me recorde, a ter o distinto privilégio de suscitar um pedido de demissão por parte de uma entidade estrangeira.
Continuando no campo, mas virando a agulha para a pecuária, regressaram as queixas de moradores por causa das galinhas que fogem da Quinta Municipal da Piedade e andam pelas ruas da Póvoa de Santa Iria. Atenção: não se trata de galináceos de baixa estirpe, mas sim de exemplares bem educados que atravessam a estrada nas passadeiras, usufruem com civismo dos espaços verdes e não chateiam ninguém. Arriscando-se, ainda, a acabar em cabidela.
O único contratempo, ao que consta, é o cantar dos galos ao despertar do dia que irrita alguns moradores com o sono mais leve. E como eu compreendo os queixosos: uma coisa é o suave zumbido dos aviões que por ali paira, graças às descolagens ou aterragens no vizinho aeroporto de Lisboa; outra coisa é o escarcéu rústico à alvorada, provocado por atrevidos galos em plena selva de betão. A malta, quando compra um apartamento numa urbanização entalada entre uma movimentada auto-estrada e uma buliçosa linha férrea, não está para ser incomodada com reminiscências bucólicas da terrinha de onde se saiu há anos. Era o que faltava!
Um até breve do
Serafim das Neves


