IA e a condição humana
Todos nós, de carne e osso, desistimos da vida real em detrimento do nosso naufrágio quotidiano nas redes sociais. Há muito que desistimos de ler e que hasteámos as nossas verdades, que nada têm a ver com o sangue que nos corre nas veias.
Parece que a Inteligência Artificial – IA – vai acabar connosco. Há mesmo quem profetize uma data para tal desiderato. Há uns tempos, O Observador contabilizou as capas da revista Time que pressagiaram o fim da humanidade.
O consumo de antidepressivos é uma expressão da modernidade. Uma paranoia. Mais uma, antes da próxima.
Estamos enfastiados de tanto estar bem. O mundo ocidental relativizou de tal modo os seus valores, que os únicos esteios a que desesperadamente se socorre são o vento que sopra e a felicidade suprema que não existe, ambos impossíveis de corporizar.
Todos nós, de carne e osso, desistimos da vida real em detrimento do nosso naufrágio quotidiano nas redes sociais. Há muito que desistimos de ler e que hasteámos as nossas verdades, que nada têm a ver com o sangue que nos corre nas veias.
Venderam-nos o direito à felicidade, substantivo cuja concretização nunca existiu, que não existe e que nunca existirá. Nem Jesus prometeu a felicidade. Aliás, o Sermão da Montanha, é uma colossal provocação dado que aponta a liberdade e a paz, precisamente, para onde aparentemente a vida falhou.
A felicidade, como um estado permanente de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, não existe.
A palavra “felicidade” provém de felicitas e de felix – fértil, frutífero ou afortunado. Uma árvore que dava muitos frutos era uma arbor felix.
A história dos homens esvaziou o sentido de gerar frutos através do esforço, substituindo-o por uma exigência biológica irrealista: a de estarmos constantemente dopados por uma sensação agradável. A ansiedade, o medo, a dor e a adversidade foram instrumentos da nossa sobrevivência, permitindo a antecipação do perigo e o desenvolvimento de mecanismos de defesa e sobrevivência.
Também não se pode estar triste. A patologização da tristeza mercantilizou a felicidade, transformando-a numa mercadoria interna permanente. Quem não está feliz o tempo todo, falhou ou está doente.
Logo, porque não se pode estar triste e porque a felicidade constitui o objectivo que dá sentido à vida, também não se pode morrer. Morrer acaba por ser uma estupidez. Por isso se escondem os funerais das criancinhas e se tentam acabar com os velórios. A morte é mesmo um despropósito que só atrapalha.
Porque se continua a mentir, jurando que a felicidade é possível, vive-se no mundo das frustrações e das percepções estúpidas. Vota-se por percepções, mas já não pela realidade. A ganância impossível da felicidade, empanturra quotidianamente a humanidade de raiva e de insatisfação.
A felicidade tornou-se na droga de um mundo ocidental profundamente alienado, um horizonte que recua à medida que se caminha. Vive-se no ápice do conforto material; hoje, a nossa realidade superaria os sonhos mais ousados dos nossos antepassados.
A ideia de que a normalidade humana deveria ser um estado permanente de bem-estar, é um embuste.
Perseguimos incansavelmente uma mentira, andamos em depressões e angústias continuadas, esquecendo de usufruir uma vida que não pedimos, pressagiando sempre apocalipses sucessivos. Porque - pasme-se -, afinal, agora é que estávamos bem: é a IA que irá impedir a nossa felicidade e acelerar o nosso ocaso.
A IA veio para ficar e não irá impedir vidas generosas, dolorosas, preenchidas e prazerosas. Como muitos outros eventos disruptivos na história, irá impor ajustes e alterações nas sociedades humanas. Terá custos, criará problemas e obrigará a adaptações — como tantas outras antes dela.
Quanto à morte, não vale a pena preocuparem-se. Ela virá de qualquer modo e é irmã desta vida.
P.N.Pimenta Braz


