Opinião | 09-10-2026 14:44

Certas Conveniências da Memória

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

A presença de mulheres na política merece ser celebrada, mas não dispensa o exame do que defendem. Uma representante pode melhorar a vida de outras mulheres ou considerar perfeitamente aceitável que continuem sujeitas às mesmas dificuldades. Não há virtude automática no sexo de quem governa.

Imagino o que pensariam certas mulheres se pudessem assistir, por alguns minutos, ao mundo que ajudaram a modificar. Uma delas talvez estranhasse encontrar uma jovem presidindo uma reunião. Outra se demoraria diante de uma mulher assinando a escritura da própria casa. Haveria quem perguntasse, desconfiada, se agora era mesmo possível escolher um marido e, depois, decidir que não o queria mais.

Algumas teriam boas razões para rir. Outras, para reclamar da demora.

Não penso apenas nas que escreveram manifestos ou tiveram seus nomes guardados nos livros. Lembro das que contrariaram o pai, enfrentaram o patrão, esconderam dinheiro na bainha do vestido ou suportaram o falatório da vizinhança por desejarem uma vida diferente daquela que lhes haviam preparado. Nem todas conheciam a palavra feminismo. Muitas estavam simplesmente cansadas de pedir licença.

Hoje, mulheres governam cidades, ocupam ministérios, disputam eleições e falam com uma desenvoltura que teria causado espanto às suas bisavós. Algumas, no entanto, fazem questão de anunciar que são contra o feminismo.

Não vejo nisso um mistério. Mulheres discordam umas das outras, como sempre discordaram. Conheço algumas cuja companhia é um prazer e outras que me fazem recordar compromissos inexistentes. Seria uma pobreza imaginar que nascer mulher determina caráter, pensamento ou preferência política.

Ainda assim, há uma curiosidade histórica nessa recusa.

É possível beneficiar-se de uma mudança e desconhecer quem trabalhou por ela. Ninguém consulta a biografia do inventor da torneira antes de lavar as mãos. Mas seria estranho abrir a torneira e fazer um discurso contra a chegada da água.

Com o feminismo acontece algo semelhante. A palavra desperta uma irritação que nem sempre vem acompanhada de interesse por seu significado. Aparece associada à destruição da família, ao desprezo pelos homens, a uma espécie de desordem moral. Algumas dessas afirmações saem da boca de mulheres que estudaram, escolheram uma profissão, recebem o próprio salário e podem disputar cargos públicos.

Talvez não percebam a ironia. Talvez percebam e não se importem.

Também não seria justo atribuir ao feminismo, sozinho, todas as mudanças na condição feminina. A história é menos obediente do que os discursos. Houve transformações econômicas, guerras, novas leis e uma quantidade imensa de mulheres comuns que desarrumaram os costumes sem pedir autorização a nenhuma teoria. Mas seria igualmente desonesto apagar a participação das feministas nesse trabalho.

Penso nas mulheres que passaram a vida cuidando de crianças, de velhos, de maridos adoecidos e de casas que nunca terminavam de ser arrumadas. Algumas não tiveram salário, descanso ou uma tarde que lhes pertencesse. Se assistissem aos debates políticos de hoje, talvez demonstrassem pouco interesse pelas disputas em torno de uma palavra. Gostariam de saber quem cuidaria delas quando suas mãos começassem a falhar.

A presença de mulheres na política merece ser celebrada, mas não dispensa o exame do que defendem. Uma representante pode melhorar a vida de outras mulheres ou considerar perfeitamente aceitável que continuem sujeitas às mesmas dificuldades. Não há virtude automática no sexo de quem governa.

Talvez por isso eu desconfie um pouco das fotografias oficiais. Mostram quem venceu, quem recebeu flores, quem ocupou a primeira fila. Dizem pouco sobre o que acontecerá com a professora mal remunerada, a mãe que procura uma creche, a trabalhadora que teme perder o emprego por estar grávida ou a senhora que depende da boa vontade dos filhos para comprar remédios.

Nenhuma dessas mulheres precisa concordar politicamente comigo. Precisa, isto sim, que seus direitos não dependam da simpatia de quem foi eleito.

Volto a pensar nas que viveram antes de nós. Não imagino que desejassem agradecimentos. Quem passa anos tentando conseguir alguma coisa costuma ter preocupações mais urgentes do que receber homenagens das gerações futuras.

Imagino uma delas ouvindo, pela televisão, uma mulher eleita declarar que o feminismo não serviu para nada. Estaria na cozinha, terminando o jantar. Da sala, alguém perguntaria se a comida ainda demoraria.

Ela desligaria o fogo, enxugaria as mãos no pano de prato e, antes de responder, talvez olhasse para a televisão mais uma vez.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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