Os imigrantes dourados, os gatos sem tomates e os desodorizantes para borrifar tim-tins
Luminoso Serafim das Neves
Luminoso Serafim das Neves
A gataria malvada, como dizia um tio meu, perante o crescimento acelerado de gatos na sua rua, vai ter acesso a habitação gratuita em Rio Maior. A Câmara Municipal decidiu instalar na cidade algumas casas denominadas “Aqui Há Gatos”, para garantir mais segurança e conforto aos gatos, no âmbito do Programa Capturar, Esterilizar e Devolver.
Na prática, o gato entra na casinha, cortam-lhe os tomates, se for macho, e metem-lhe um “chip” na orelha, tipo cartão de identificação electrónico, para saber por onde anda. O sonho de qualquer político pragmaticamente radical, empenhado em controlar os não gatos sem-abrigo, ou com abrigo municipal, mas sem freio a nível reprodutivo.
Um programa eleitoral que daria vitórias esmagadoras, fosse a nível nacional ou municipal, principalmente em zonas de grande concentração… de problemas, digamos assim.
Já ouvi eleitores muito activos confessarem, mesmo em dias de reflexão eleitoral e à porta das secções de voto, que seria esse o seu sentido de voto, se houvesse, segundo eles, políticos… com eles no sítio. Os tim-tins, claro. E para a coisa não ter um odor muito activo, até já há desodorizantes para borrifar para dentro das cuecas.
Mais a sul, na Quinta Municipal da Piedade, no espaço urbano da Póvoa de Santa Iria, o problema não são gatos, mas galinhas cacarejantes e galos com insónias que cantam estrepitosas alvoradas a meio da noite.
Esta coisa de ser sempre de dia, seja onde for, por causa da abundante iluminação que temos nas cidades, vilas e aldeias, para evitar assaltos, roubos, assassinatos, violações e outros crimes, desregula a cabeça de humanos e animais, sejam gatos, galos ou canídeos. E eu sei bem que sim porque os cães aqui da terra ladram toda a noite, por não conseguirem adormecer.
Observar estrelas cadentes, já não é possível. Nem cadentes, nem das outras, porque há luz a mais. Só se for no meio do oceano e mesmo assim, há sempre alguém que vai pedir para acenderem as luzes do barco…para prevenir crimes.
As novas gerações não sabem o que são pirilampos, nem vão ter o prazer de pirilampar, como diria o Herman José, ao ar livre, no escurinho das noites de Verão. Outro Mundo, outros hábitos.
Aldous Huxley tinha anunciado o Admirável Mundo Novo para o ano 2540, com tecnologia reprodutiva, hipnopedia, manipulação psicológica e condicionamento clássico, que se combinavam para mudar profundamente a sociedade. Enfim, era um bom escritor, mas um mau vidente.
O ano passado foram atribuídos quase dois mil e setecentos vistos Gold. Um recorde, dizem as notícias. Americanos, chineses, turcos, ingleses, indianos, russos, brasileiros, são os novos residentes.
Nenhum deles vai sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde nem a Segurança Social. E também não vão transpirar a apanhar mirtilos ou framboesas nas estufas. Cidadãos de ouro, limpinhos, bem vestidos, perfumados e endinheirados.
No mínimo, cada um teve que meter cá meio milhão de euros. E é provável que alguns tenham vindo aqui para a região. Se não vieram os nossos autarcas devem reivindicá-los. Exigir a fixação de quotas por concelho. Todos temos direito a ter imigrantes douradinhos, digamos assim.
Um Saudações agrícolas
Manuel Serra d’Aire


