Opinião | 15-10-2026 09:49

A Feira de Santa Iria em Tomar é para todos

A Feira de Santa Iria em Tomar é para todos
Filipa Fernandes

A Feira de Santa Iria faz parte de Tomar. Faz parte da nossa história, das nossas memórias e daquilo que nos une enquanto tomarenses. Não devemos permitir que essa dimensão se perca.

'Não me preocupam as vozes daqueles a quem nada falta, mas sim o silêncio daqueles que, mesmo precisando, não se fazem ouvir"

Há famílias em Tomar que trabalham todos os dias, têm dois salários a entrar em casa e, ainda assim, chegam ao fim do mês com muito pouco dinheiro disponível. Não vivem de apoios sociais. Não fazem grandes extravagâncias. Trabalham, pagam impostos, criam os seus filhos e fazem contas. Muitas contas.

Pensemos numa dessas famílias.

Dois adultos, duas crianças. Um dos pais é técnico superior na Administração Pública, o outro é assistente operacional. Juntos, recebem aproximadamente 2.310 euros líquidos mensais, incluindo subsídio de alimentação.

Vivem num apartamento arrendado em Tomar, pelo qual pagam cerca de 800 euros. Depois vêm a água, a eletricidade, o gás, as telecomunicações, a alimentação, o combustível, as despesas escolares, a saúde, o vestuário e a manutenção do automóvel.

E talvez ainda consigam proporcionar aos filhos algo tão simples como uma atividade desportiva ou apoio ao estudo.

Não estamos a falar de luxos. Estamos a falar de uma vida perfeitamente comum.

Num orçamento familiar ilustrativo como este, as despesas mensais podem facilmente ultrapassar os 2.100 euros. No final do mês, sobra pouco mais de uma centena de euros.

É importante termos presente esta realidade quando discutimos decisões públicas que, à primeira vista, podem parecer pequenas.

Como a decisão de passar a cobrar bilhetes para os concertos da Feira de Santa Iria.

Porque uma família de quatro pessoas não compra um bilhete. Compra quatro. E, considerando um custo total de cerca de 100 euros em passes gerais, estamos a falar de uma despesa que pode representar praticamente toda a margem disponível no orçamento mensal daquela família.

Cem euros podem parecer pouco para uns. Para outros, são a diferença entre conseguir proporcionar um momento de lazer aos filhos ou ter de abdicar dele.

E há uma outra dimensão desta decisão que não devemos ignorar.

O dinheiro gasto à entrada é dinheiro que deixa de estar disponível para gastar dentro da própria Feira. É uma refeição que poderá deixar de ser feita numa tasquinha, uma fartura que não se compra, uma bebida que não se consome no bar de uma associação, uma volta de carrossel que uma criança não dará.

A decisão não afeta apenas as famílias. Pode também ter consequências para os pequenos negócios, as associações e todos aqueles que fazem parte da dinâmica económica e social da Feira.

Mas a questão que mais me preocupa nem sequer é económica.

É a possibilidade de estarmos a transformar, progressivamente, um espaço de encontro e de pertença num espaço em que a capacidade financeira começa a determinar quem pode participar e quantas vezes pode participar.

A Feira de Santa Iria não nasceu como um festival de música. É muito mais do que isso.

É uma tradição profundamente ligada à identidade de Tomar. É memória coletiva. É o encontro entre gerações. É o lugar onde avós, pais, filhos e netos partilham experiências, onde encontramos pessoas que não vemos há meses e onde, por alguns dias, a cidade se reconhece a si própria.

E é aqui que importa fazer uma reflexão sobre o papel do poder local.

Ouvimos, por vezes, o argumento de que os impostos dos cidadãos não devem servir para pagar concertos.

Discordo desta visão.

Os impostos existem precisamente para financiar aquilo que, enquanto comunidade, consideramos importante garantir coletivamente.

Todos contribuímos para a educação, mesmo quando não temos filhos na escola. Para o Serviço Nacional de Saúde, mesmo quando não precisamos de cuidados médicos. Para jardins, bibliotecas, equipamentos desportivos, estradas e serviços públicos que podemos nem sequer utilizar diretamente.

Fazemo-lo porque viver em sociedade implica reconhecer que o valor de um serviço público não se mede apenas pelo benefício individual que dele retiramos.

E a cultura como encontro social não deve ser uma exceção.

Isto não significa defender despesa pública sem critério. Muito pelo contrário. O dinheiro dos contribuintes exige rigor, transparência, responsabilidade e escolhas fundamentadas.

Mas governar bem não é apenas buscar receita e viver obcecado com números.

Governar bem é também compreender o impacto social das decisões. É perceber quem fica de fora, quem tem de abdicar e quem deixa de participar quando aquilo que antes era acessível passa a ter um preço.

A cultura, o lazer e o convívio não são necessidades secundárias de uma comunidade. São dimensões essenciais da qualidade de vida.

Num tempo em que tanto falamos de isolamento, solidão, saúde mental e perda de relações de proximidade, deveríamos valorizar ainda mais os espaços que permitem às pessoas encontrar-se, conviver e sentir que pertencem a um lugar.

Nem todas as respostas para o bem-estar estão dentro de um consultório. Também estão numa praça cheia de gente, numa festa popular, numa atividade cultural partilhada, numa conversa entre vizinhos.

É também para criar essas oportunidades de livre acesso que existe o poder local.

Eu acredito num poder local que não se limita a gerir equipamentos, organizar eventos pagos, ou colocar números à frente de pessoas. Acredito num poder local que constrói comunidade, que reduz barreiras à participação e que compreende que o desenvolvimento de um concelho também se mede pela qualidade das experiências que proporciona aos seus cidadãos.

A Feira de Santa Iria faz parte de Tomar. Faz parte da nossa história, das nossas memórias e daquilo que nos une enquanto tomarenses.

Não devemos permitir que essa dimensão se perca.

Cultura não é um luxo.

Convívio não é um luxo.

E pertencer à nossa própria comunidade não pode tornar-se um luxo.

Filipa Fernandes

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