A virada das forças democráticas
O Brasil passou por um risco terrível de cair em um enorme retrocesso político e social sem precedentes, caso acontecesse uma vitória da Extrema-Direita. O projeto deles para o país seria uma cópia da tragédia social que está acontecendo na Argentina, onde a miséria e a fome aumentam a cada dia.
O presidente Lula não venceu sozinho, nem a Esquerda, muito menos o PT ou mesmo a coligação de partidos políticos que apoiavam o presidente, porque a vitória foi das forças democráticas, que unidas derrotaram mais uma tentativa do neofascismo de se apossar do Estado brasileiro, para depois implodi-lo. Foi uma luta sem tréguas nestes poucos dias, entre a derrota acachapante do primeiro turno e a vitória espetacular no segundo turno, uma virada para entrar na história em todos os aspectos porque, a mobilização de jovens e velhos, formaram uma corrente nunca antes vista aqui no Brasil. Na minha geração era natural os jovens se mobilizarem pelas grandes causas populares, mas, há muito tempo não se via, várias gerações de jovens nas manifestações e nas ações orientadas pelos influenciadores da ala progressista. O deputado federal por Minas Gerais, André Janones, organizou o Exército do Lula e consolidou uma mobilização permanente que quase lhe custou a saúde e a própria vida, por causa disso foi parar no hospital com uma arritmia cardíaca preocupante. No final sobreviveu, venceu e ganhou o título de general Janones, título esse que lhe renderá muitos frutos em sua carreira política.
Como sempre, a Extrema-Direita usou e abusou das ilegalidades e de manobras sórdidas para tentar destruir uma tendência que se consolidava a cada dia. Nas ruas e nas redes sociais, principalmente, se percebia nitidamente um movimento ascendente da candidatura à reeleição do presidente Lula, mesmo no debate da Bandeirantes, que foi feito para dar todas as vantagens ao candidato neofascista, Lula não se saiu de todo mal. Demorou, é verdade, para entrar no jogo, mas conseguiu muitos bons momentos, onde encurralou o seu adversário, principalmente quando propôs a abertura total de contas e a quebra de qualquer sigilo. Flávio teria tudo a perder se aceitasse, por isso enrolou do jeito que pode para tentar distorcer à proposta, mas, como se diz no boxe, ficou nas cordas por um bom tempo.
No segundo debate, porém, com regras mais imparciais e checagem dos fatos, Lula brilhou como nos velhos tempos e, tirando um erro ou outro, que acabaram não lhe prejudicando, como por exemplo, quando trocou 33 milhões por 33 mil, ao se referir ao número de pessoas que estavam passando fome quando ele assumiu o terceiro mandato, em 2023. Flávio Bolsonaro, pelo contrário, estava visivelmente nervoso, como aquele time que entra em campo como favorito e percebe que o adversário não o considera assim e cometeu erros que lhe custaram um alto preço. Quando chamou Lula de nove dedos, ou quando chamou de Ana Clara, a mãe da menina de cinco anos barbaramente assassinada por um policial militar que ele protege, na verdade a mãe se chama Cristiane e estava na plateia. Ela não se conteve e gritou no mesmo momento: “Ela está morta”! Isso causou uma grande comoção no país inteiro.
O Brasil passou por um risco terrível de cair em um enorme retrocesso político e social sem precedentes, caso acontecesse uma vitória da Extrema-Direita. O projeto deles para o país seria uma cópia da tragédia social que está acontecendo na Argentina, onde a miséria e a fome aumentam a cada dia. O tresloucado Javier Milei veio, inclusive, apoiar a campanha de Flávio Bolsonaro, mas isso não somou, porque há muita informação sobre a situação do povo argentino: a pobreza atingiu, só no primeiro semestre de 2026, 32,3% da população, cerca de 15 milhões de pessoas e a pobreza extrema, 7/5%. O achatamento dos salários e o aumento de tarifas básicas são dois dos pilares responsáveis pela degradação contínua da qualidade de vida do povo argentino. Com isso o escambo voltou e a carne bovina argentina de alta qualidade foi trocada por carne de burro. Quase 20 mil estabelecimentos da cadeia produtiva fecharam, cerca de 30 por dia, e assim se perderam 276 mil empregos, onde 55 mil foram na área industrial.
A versão de Flávio seria igual ou pior que a da Argentina e isso me fez lembrar de um aposentado que, em uma manifestação em Buenos Aires, disse que Milei era ‘un engendro del infierno’, ante a calamidade pública que ele implantou no país vizinho. Pois então, como apelidariam Flávio Bolsonaro caso ele fosse presidente do Brasil? Demônio dos trópicos; Nosferatu da Barra; Vampiro Carioca... Ainda bem que não será necessário este exercício criativo, porém, masoquista, pelo menos por mais quatro anos.
Vinicius Todeschini 26-10-2026


