Opinião | 20-10-2026 19:20

É chinesa! E então?

É chinesa! E então?
Susana Esteves. Jornalista e motociclista

A indústria chinesa está a subir de cilindrada e de posicionamento. Em Chongqing, um dos grandes centros de produção de motos da China, a produção de modelos de média e grande cilindrada cresceu 67% no primeiro semestre de 2026, e as exportações de motos acima dos 800 cc mais do que quadruplicaram.

Se eu vos disser que comprei um carro chinês, provavelmente vão perguntar qual, mas se disser que comprei uma moto chinesa, há uma boa hipótese de a primeira pergunta ser: “Mas porquê?”

Nos carros, estamos a assistir à normalização das marcas chinesas, mas nas motos, ainda há uma espécie de barreira cultural imposta pelos motociclistas.

Isto já ultrapassou a #trend. Os números tornam o tema difícil de ignorar.

Até julho de 2026 o mercado europeu de motos cresceu 10,4%, mas a CFMOTO cresceu 62%, a Zontes 56,9% e a Voge 47,3%. No mesmo período, a Honda recuou 0,8%, a BMW 2,3%, a Triumph 3,1% e a Ducati 3,4%.

Isto não significa que as chinesas estão a dominar o mercado, mas também já não são uma nota de rodapé. Até em Portugal isto se nota. Em junho, a CFMOTO ultrapassou pela primeira vez as 500 matrículas e liderou o segmento acima dos 125 cc, segundo dados da ACAP.

Portanto, podemos continuar a fazer a piada da “moto chinesa”, mas convém fazermos um reality check, de vez em quando.

E porque é que continua a existir resistência, e ainda a postura: “Eu nunca comprava uma chinesa”!

Durante muitos anos, a imagem associada às motos chinesas esteve ligada a modelos baratos, cilindradas pequenas e a uma qualidade questionável.

Só que o mercado mudou, e a designação “chinesa” é apenas uma origem, não uma ficha técnica.

A indústria chinesa está a subir de cilindrada e de posicionamento. Em Chongqing, um dos grandes centros de produção de motos da China, a produção de modelos de média e grande cilindrada cresceu 67% no primeiro semestre de 2026, e as exportações de motos acima dos 800 cc mais do que quadruplicaram.

Isto é importante para percebermos que já não estamos apenas a falar de uma 125 barata para ir trabalhar. São adventure, naked, sport touring, scooters de maior cilindrada e motos que entram diretamente em segmentos onde, até há pouco tempo, as escolhas estavam muito mais concentradas nas marcas japonesas e europeias.

Depois há outra questão, algumas marcas estão a trabalhar com fornecedores que conhecemos bem, como a Brembo para o desenvolvimento de sistemas de travagem para futuras motos de média e alta cilindrada.

Ou seja, aquela ideia de que uma moto chinesa é feita do outro lado do mundo sem ligação à indústria que conhecemos, também começa a estar errada.

Atenção: eu não comprei uma moto chinesa, nem sou advogada de defesa destes produtos. Mas acho que é um tema histórico que merece reflexão, até porque está à nossa frente, só não vê quem não quer.

Até porque as questões que envolvem as marcas chinesas não se prendem apenas com qualidade. Quem está por trás da marca? Quem é o importador? Quantos concessionários existem? Como funciona a assistência? Há peças disponíveis? Quanto tempo demoram? Que garantia temos? E daqui a cinco ou dez anos?

Porque há uma diferença enorme entre comprar uma moto que tem bons componentes, muito equipamento e um preço competitivo e comprar uma moto cuja rede de assistência ainda não está suficientemente consolidada.

Depois há a questão da revenda, e aqui caímos na chamada “pescadinha de rabo na boca”.

Uma moto pode ser excelente e continuar a valer pouco no mercado de usados simplesmente porque os compradores ainda não confiam na marca. Entramos no: “Não compro porque desvaloriza, desvaloriza porque pouca gente compra, pouca gente compra porque ninguém quer uma moto que desvaloriza... e assim se constrói uma reputação.”

Estamos perante marcas que estão a crescer rapidamente, a investir em produtos cada vez mais sofisticados e a conquistar espaço num mercado onde as marcas tradicionais continuam a ter uma enorme vantagem em história, reputação, rede e confiança.

No mercado automóvel, o consumidor é mais relaxado. Os motociclistas, talvez valorizem mais a confiança. Uma Honda, Yamaha, BMW ou uma Ducati não vendem apenas uma moto, vendem décadas de história, reputação, identidade, fiabilidade. Sabemos como envelhecem. O facto de uma moto ter excelente equipamento à saída do stand não nos diz automaticamente como estará daqui a dez anos.

Seja qual for o nosso “feeling”, a verdade é que as marcas chinesas já não estão à porta do mercado europeu a pedir licença para entrar.

Alguém com bom feedback de marcas chinesas?

Boas curvas //

Texto publicado originalmente na revista Andar de Moto de Outubro de 2026

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