Opinião | 20-10-2026 13:19

Morte e ressurreição do socialismo?

Morte e ressurreição do socialismo?

com um abraço a José Brilhante

O socialismo não pode sobreviver enquanto tapar o sol com a peneira. Em Santarém, sabe-se que vários relapsos nas quotas foram expulsos e outros não. Porquê? Eu me quedo caloteiro a aguardar a expulsão.


Tenho três ou quatro textos alinhavados para este espaço de crónicas com gente dentro. Um deles à espera que a Ana Serrano, (arqueóloga de formação tornada dirigente de os Esparteiros, amiga de sempre), nas Mouriscas, o reveja. Dizendo-me se não traio algum segredo. Se o texto faz jus à visita. Nele recorro à frase, óbvia para quem conhece a minha história pessoal (convido os leitores a pesquisar): -“Mãe quando é que acaba o PS?” [Partido Socialista].

Na semana passada, a convite de Universidade da Beira Interior (UBI), outra crónica na gaveta, fiz uma conferência sobre José Relvas. Falecido no ocaso da República, pouco tempo depois da derrota da última grande rebelião armada contra a ditadura. Estão quase a fazer 100 anos em 1929. É tempo de pensar nisso.

Mudando de tempo e de pessoa, faleceu José Brilhante, para quem esta crónica é apenas um abraço. Quase sintomaticamente, nestes nossos dias, parece estar ligado às máquinas o PS de Santarém. Conheci menos bem o camarada Brilhante, cuja vida verteu em livro. Lembro-me bem da sua filha Rita, para quem segue outro abraço, confessando-lhe que não gostei nada do CD de Simplly Red, oferecido na juventude, perdido num canto qualquer. Presença presente no imaginário socialista da nossa terra, tenho um texto inédito de seu pai, talvez o consiga recuperar. Foi ele um dos poucos a responder ao repto de fazer uma espécie de história da JS Ribatejo. A esse projeto a que não foi possível dar continuidade. Alguns socialistas esquecem verdades simples: o comum dos mortais naquilo que faz e é razoavelmente bom deve ser pago. Geralmente “também de pão vive o homem”. Não era de todo o caso de quem evocamos. Só que a crónica é mais sobre o PS e o abraço já está dado.

Leio só o lead de uma entrevista a Salvador Sobral, no Expresso. Mesmo sem pagar renda é difícil ter pecúlio para todos os jornais. Não que estes sejam caros, a generalidade das pessoas é que ganha mal, mesmo quem ganha bem. Isso é dos principais problemas aos quais os socialistas - como José Brilhante, de entre outros, é certo – têm de dar resposta. Se não derem, para que serve essa palavra? Quase quase como Sobral, nas Mouriscas converso com Ana: “Aquele é comunista e é dos mais ricos da freguesia…” - diz quase em segredo – “Então, o comunismo não é sermos todos ricos? Ou pelo menos ninguém realmente ser pobre?”. De uma maneira, ou de outra, esse é o sonho de uma margem esquerda da vida, a qual não devemos confundir com irrealismo.

O socialismo anda pela hora da morte porque deixou de ter soluções e de insuflar esperança num “amanhã a cantar” para se tornar um partido da situação. E tal como o doutor Salazar “a situação está a mais”. Após 50 anos, “o que é novo cresce e o que cresce vence”, e o atual sistema partidário, virando a direito e/ou retornando à esquerda, terá tendência à reconfiguração. Nada disso, nos põe mais uns cobres no bolso para ir ali comprar o jornal.

Por outro lado, 0% por cento de IRC podia. Não há nada de “não socialista” em pensar que as empresas não deveriam pagar impostos (os empresários é que têm de pagar impostos). Tal como não há nada de errado em dizer que os funcionários que não querem fazer nenhum, devem poder ser despedidos sem grande dor, sem grandes custos. O socialismo está em procurar encontrar para cada pessoa um papel adequado, eventualmente útil na sociedade. O neoliberalismo parece apenas dizer “safa-te, tiveste as mesmas oportunidades”. Entre reformas e a sua ausência, o PS nacional perde a oportunidade de pensar estes tempos e respostas reais para problemas concretos, que possam geram riqueza e equidade. Com as debilidades conhecidas a última pessoa, à esquerda, a conseguir mudar alguma coisa foi José Sócrates, veja-se por exemplo funcionamento das finanças antes e depois.

O PS local tem feito um excelente trabalho na luta pelas vacinas. Só acho estranho a pouca motivação dos camaradas contra a desinformação de uma corrente religiosa cristã anti-transfusões de sangue. Isso não merece dos doutos líderes qualquer reparo? Embora moralmente o caso seja o mesmo. Um guru é contra as vacinas e aluga um auditório. Uma religião é contras a transfusões e aluga um auditório. Eu, pessoalmente, já não fumo, mas sou totalmente a favor do tabaco. Também posso alugar um auditório para um fumício em prol do tabagismo. Ou já não? Nada disso explica, como o PS Santarém iria pagar o novo Teatro no Campo da Feira, a nova Biblioteca, o Museu e galeria de Arte e, já agora, um Arquivo Municipal de que tanto precisamos.

Taxar a arrogância é difícil. Taxar as grandes empresas também. O Estado não deve viver só de dívidas e/ou de impostos, tem de ter verbas próprias, gerados por atividade económica. Como, por exemplo, o aluguer de auditório ou até de monumentos, não vejo nada de sistematicamente errado. Ou, claro, adquirindo empresas que dão lucros (como a REN ou parte de um banco), e deixando-as sossegadas a dar lucros.

O socialismo não pode sobreviver enquanto tapar o sol com a peneira. Em Santarém, sabe-se que vários relapsos nas quotas foram expulsos e outros não. Porquê? Eu me quedo caloteiro a aguardar a expulsão

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