Pagar a casa com o corpo, carros em coma e a involuntária sujeição às barbaridades ministeriais
Acutilante Manuel Serra d’Aire
Acutilante Manuel Serra d’Aire
Se fosse tão fácil aos nossos políticos resolverem o complexo problema da habitação digna para os seus concidadãos como é o do alojamento para os gatos de rua nalgumas cidades da região e do país, de que Santarém e Rio Maior são exemplos publicitados, e outro galo cantaria – para além do já conhecido galináceo da Póvoa de Santa Iria que incomoda, à alvorada, alguns moradores mais sensíveis aos ruídos da mãe natureza.
Os gatos de rua, de que tu felizmente te lembraste na tua última dissertação, também são filhos de Deus. E, conscientes dessa realidade, há autarquias mais sensíveis que lhes garantem casa. Uma nobre medida, embora não isenta de contrapartidas. Se na habitação social para humanos os inquilinos têm de pagar uma renda, muitas vezes simbólica, para ter direito a um tecto, no caso dos felinos o preço é mais severo: os candidatos têm que pagar o abrigo com o corpo, ou melhor, com os tomates. Literalmente! Qualquer Tareco que queira ter casa tem que ser capado. Uma medida drástica que parece remeter mais para as guilhotinas da Revolução Francesa do que para um programa supostamente amigo dos animais. Mas, claro, isto é um leigo a falar, que se sente abençoado por não ter nascido gato.
O ministro da Economia encorajou os portugueses a andarem menos de carro para obrigar os combustíveis a baixar pela via da redução da procura (é favor não rir) e a ministra do Ambiente desafiou-nos a andarmos mais à boleia, para pouparmos combustível. Eventualmente traumatizado por tão excelsas personalidades e peregrinas ideias, o meu automóvel flipou. O motor deu o último suspiro e eu fui obrigado a descobrir que andar a pé também é uma boa opção, ou, pelo menos, melhor do que a dos pobres gatos que aceitam casa da câmara.
O que descobri também durante este processo comatoso que o meu automóvel atravessa foi que o sector das oficinas e mecânicos vive uma realidade semelhante à do Serviço Nacional de Saúde. Algumas das oficinas que contactei, para tentar internar o enfermo, informaram-me que não tinham camas nem pessoal disponíveis para dar resposta a um caso tão bicudo. Outras, mal ouviram falar dos sintomas disseram logo que ali não tratavam tão graves maleitas, só coisas mais asseadinhas e ‘filet mignon’.
Finalmente, depois de muito deambular pelas páginas amarelas das clínicas da especialidade, lá encontrei uma alma caridosa que se comprometeu a albergar o combalido veículo. E a abri-lo, para lhe escrutinar as entranhas e ver se valia a pena operá-lo ou encomendar-lhe o funeral. Isto, claro, sem prazos definidos. E o paciente por lá continua há semanas e semanas, provavelmente a soro e ligado à máquina. Mas, ao que sei, ainda com as peças todas. Coisa de que muitos garbosos gatos não se podem gabar…
Um fungagá da bicharada do
Serafim das Neves


