Defender o ambiente, pintando a gasolina de verde; ir ao circo ver a sua extinção ao vivo, e promover o campismo urbano no Ribatejo
Acrobático Serafim das Neves
Acrobático Serafim das Neves
Fui ao circo e aconselho-te a fazeres o mesmo, se estiveres com vontade de ver algo a extinguir-se, sem ser um vulcão. Aproveita a primeira oportunidade, que pode ser a última, e vai.
A companhia que fui ver era itinerante, daquelas em que a trapezista, para além do número artístico, vende bilhetes e faz pipocas e algodão doce no intervalo. O apresentador era palhaço e assistente do malabarista que, por sua vez, anda a vender brinquedos às crianças, antes de subir ao palco.
Números com animais não havia porque agora os animais já não podem ser explorados, limitando-se a fazer companhia aos donos em frente à televisão e a comer comida enlatada. Nem sequer mulheres com cobras enroladas à volta do pescoço são permitidas, sabe-se lá porquê?
Engolidores de espadas ou de fogo também não é fácil encontrar porque são coisas demasiado perigosas. Nunca me esqueço do bombeiro que nos mandou apagar os isqueiros quando balançávamos com eles ao som da balada que o artista cantava.
A falta de mão-de-obra de que se queixam os empresários também atingiu os circos. Onde se arranja uma contorcionista razoável, mesmo a pagar a peso de ouro? E haverá engolidores de espadas disponíveis para contratar, no Centro de Emprego de Torres Novas ou Santarém, por exemplo?
Quanto aos cada vez menos imigrantes que chegam, é certo e sabido que, embora andem no arame todos os dias por causa das autorizações de residência, não vêm para trabalhar no circo. E quando equilibram alguma coisa, são pratos e copos nas bandejas dos cafés e restaurantes onde trabalham ou, quando muito, cestos de fruta nos costados.
Os circos não estão classificados como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Nem pela Unesco, nem pelo nosso Ministério da Cultura. É compreensível. A cultura circense está abaixo da cultura tauromáquica… e mesmo abaixo de cão, digamos assim. O dinheiro dos nossos impostos não chega para tudo, caramba. Há causas mais nobres a apoiar. Há ou não há?! E bem mais tradicionais!!
O que me consola é saber que, daqui a alguns anos, vão chegar verbas da União Europeia para a reintrodução dos circos em Portugal, como aconteceu após a extinção do lince da Serra da Malcata, que depois passou a ser denominado lince ibérico. Um PRR circense abrangente. Para circos, clubes de futebol, partidos políticos, etc, etc.
E por falar em dinheiro de impostos, graças a Deus que os governos não têm tido a tentação de se armarem em grandes ambientalistas e continuam a gastar mais em subsídios à gasolina e ao gasóleo do que em apoios às energias renováveis. Cá está mais um bom exemplo de preservação das tradições.
Defesa do ambiente está bem… mas nada de exageros! E se querem ficar bem na fotografia ambiental, pintem os combustíveis fósseis de verde, como fazem com o gasóleo agrícola.
Por falar em tradições, porque é que tudo o que é novidade só acontece em Lisboa e Porto?? É uma injustiça!! Nós aqui com tanto espaço e boas condições e o pessoal do campismo urbano, digamos assim, ignora-nos. Não são só os políticos que são todos iguais. É também aquele pessoal das tendas!! Venham para aqui, seus discriminas!!
Um abraço mágico
Manuel Serra d’Aire


