Rosa Montero, Cristina Sobral, Julia Medrado, Yuki Rodrigues e um elogio ao autor de “O romance dum homem rico”
Este espaço daria pano para mangas se a intenção fosse dissecar os temas mais importantes desta ou de outras edições do jornal. Não é o caso. Daí a crónica mais para o leve que se lê de uma assentada.
A ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) obriga as empresas de comunicação social a darem conta da publicidade facturada com os organismos do Estado. Mais de oito em cada dez empresas, e outras entidades proprietárias de órgãos de comunicação social, continuam sem esclarecer quanto receberam de publicidade paga. A notícia é do jornal digital PÁGINA UM que escreve que apenas 17% das entidades sujeitas à obrigação legal preencheram os novos campos do Portal da Transparência da ERC. O prazo terminou a 30 de Setembro, após uma prorrogação excepcional de mais de dois meses. Como parece evidente, o grande número de empresas de órgãos locais e regionais, que vivem só do trabalho do seu director/administrador, estará na origem desta desgraça. Recorde-se que nos últimos 15 anos terão fechado cerca de seiscentos títulos, e alguns dos que ainda resistem são pura e simplesmente a “voz do dono” como se diz na gíria, quando os jornais e as rádios dependem dos favores dos empresários ou políticos com interesses instalados.
Os Bombeiros de Alverca são notícia nesta edição pelas piores razões. O MIRANTE publica um texto que já foi notícia na edição online que provocou uma reacção pouco amistosa assinada pela Direcção e pelo Comando, onde nos proíbem, inclusive, de escrevermos sobre o assunto, como se o email que nos dirigiram a contestar o nosso trabalho merecesse sigilo, ou nos obrigasse a meter a viola no saco. Aparentemente, a Direcção e o Comando dos Bombeiros de Alverca são gente boa, mas pouco habituada a ser confrontada com a liberdade de imprensa, e a saber utilizar as boas relações institucionais para se defenderem, ou completarem o que não escrevem nos seus comunicados, mas gostava que escrevessem no jornal.
Este espaço daria pano para mangas se a minha missão fosse dissecar todas as semanas os principais assuntos que passam pelas páginas deste jornal. Talvez noutro espaço isso seja possível, e até desejável. Mas não serei eu que vou deitar mãos a esse trabalho. Outros que o façam. A democracia para se fortalecer precisa de uma cidadania activa, e nada melhor que um órgão de comunicação social, que é o espelho de uma região, para criar esses hábitos que regra geral só entendemos quando somos parte de quem é vítima ou algoz.
Na passada semana fui à Biblioteca Almeida Garret, no Porto, só para ouvir Rosa Montero uma das minhas escritoras preferidas. O auditório estava cheio e ainda havia muita gente nas laterais sentados no chão. Rosa Montero é uma jornalista de profissão que tem uma obra de ficção das mais extraordinárias dos nossos tempos. No auditório, cerca de 75% dos presentes eram mulheres. Quando se trata de literatura, conferências sobre questões humanitárias, solidárias ou relacionados com direitos humanos, as mulheres estão sempre em maioria, digo, em grande maioria. Embora recentemente em Madrid me tenha recusado a ir para a fila pedir autógrafos, no Porto aproveitei para pedir dedicatórias em quatro livros, não só para mim, mas também; “para a Joana que é um amor”; “para o Bernardo este livro sobre a força da vida”; “para o Joaquim que é maravilhoso”; “para o Vergílio colega de profissão”. Tenho livros de grandes autores autografados apenas com um rabisco do seu nome, sem um pingo de inspiração ou vontade de deixar uma marca de simpatia pelo leitor.
A última vez que percebi a força da presença das mulheres nestas iniciativas foi num colóquio, na Gulbenkian, com o poeta e teólogo Tolentino Mendonça, em que, das 300 pessoas presentes, 250 eram mulheres. Mas também podia falar da Yuki Rodrigues que fui ouvir durante o fim-de-semana num concerto no museu do Papel, em Paços de Brandão, ou da Julia Medrado, em Coimbra, que foi minha interlocutora numa longa conversa sobre poesia, política e redes sociais.
Por último, que a crónica já vai longa. Não consegui comparecer no Vale de Santarém na conferência de Cristina Sobral sobre o livro “Romance dum homem rico” de Camilo Castelo Branco, mas reli o livro em duas noites e fiquei outra vez rendido a um escritor que continua actual, a obrigar-me a ir ao dicionário a cada duas páginas, com uma capacidade de descrever a alma de um padre, ou de uma mulher (Maria da Glória), com a mestria que não tem paralelo em outro escritor das letras lusas. Para quem sofre de depressões ou de fadigas da alma, fica aqui o conselho do escriba: leiam este livro de Camilo que o próprio reconheceu ser “o mais querido dos meus romances”. JAE.


