Opinião | 02-11-2026

Habitação: a tempestade perfeita

1 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
2 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
3 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
4 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
5 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
6 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
7 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
8 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
9 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
10 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
11 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
12 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
13 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
14 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
15 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
16 / 17
Habitação: a tempestade perfeita
17 / 17
Habitação: a tempestade perfeita

Portugal construiu um país de proprietários, mas esqueceu-se de criar uma alternativa para a classe média, que não passasse pela compra.

O pequeno espaço de asfalto frio junto à Assembleia da República transformou-se, no passado dia 27 de outubro, no palco de uma indignação coletiva que já não cabe dentro de quatro paredes. Até porque, para muitos, essas quatro paredes nem sequer existem.

Jovens que não conseguem sair de casa dos pais, famílias obrigadas a abandonar Lisboa e trabalhadores que descobrem que um salário já não chega para pagar uma renda. João, em Oeiras, continua em casa dos pais. Gisela saiu de Lisboa para a Margem Sul. Joana questiona um mercado onde a casa parece valer mais como investimento do que como lugar para viver.

Mas como chegámos aqui?

Temos de recuar mais de um século. No final do século XIX, a industrialização trouxe às cidades europeias milhares de trabalhadores e uma enorme necessidade de habitação. A resposta começou a passar pela intervenção do Estado e pela construção de casas para arrendar.

Portugal seguiu outro caminho. Desde as primeiras casas económicas de 1918, reforçadas pelo modelo do Estado Novo em 1933, a política habitacional privilegiou progressivamente a propriedade. A casa devia acabar nas mãos da família (Deus, Pátria , Família) e não como responsabilidade do Estado

Veio Abril e o parque habitacional estava pobre, barracas e mais barracas, construção clandestina . O estado teve de investir em força no realojamento das famílias mais pobres, nomeadamente através do PER. E nos anos 80 e 90, através do crédito bonificado ajudou milhares de portugueses a comprar casa.

Na Europa, o caminho foi diferente. Afetados pela destruição causada pelas duas guerras o arrendamento público e sem fins lucrativos foi a solução encontrada, não a compra, tanto para as classes mais necessitadas como para a classe média.

Em Portugal, a habitação pública ficou sobretudo associada às situações de maior carência. Para a classe média, a solução era comprar.

E comprava-se. Até que deixou de ser possível.

Veio a crise financeira, veio a troika, a construção parou durante quase uma década. E depois aconteceu uma coisa extraordinária: o mundo descobriu-nos.

Descobriu Lisboa, o Porto, o sol, a segurança e o país barato. E vieram turistas, investidores, fundos imobiliários, alojamento local e novos residentes.

Vieram todos.

E as casas eram as mesmas.

A procura cresceu, os preços dispararam e os salários ficaram para trás.

Chegou a geração dos mil euros, a geração que trabalha mas não consegue arrendar, que continua em casa dos pais e adia projetos de vida.

O problema já não é apenas a falta de casas. É a falta de uma alternativa para quem não consegue comprar.

E agora, como se resolve o problema ?

Durante décadas, governos de diferentes cores políticas privilegiaram a propriedade e nunca construíram um parque público de arrendamento com dimensão suficiente para servir a classe média. Não se trata de dizer que nada foi feito. Trata-se de reconhecer que aquilo que foi feito não chegou.

Agora, quando a crise já não pode ser escondida, os partidos passam o tempo a apontar o dedo uns aos outros. A culpa é do Governo anterior, do turismo, dos investidores ou dos estrangeiros.

Há sempre alguém a quem atribuir responsabilidades. O que parece faltar é quem assuma a responsabilidade pelo modelo que todos herdaram e que poucos quiseram transformar.

A habitação precisa de mais construção, reabilitação, regulação e investimento público. Mas, sobretudo, precisa de uma mudança de visão: deixar de tratar a habitação pública como uma resposta exclusiva aos mais pobres e criar uma verdadeira alternativa para quem trabalha e não consegue comprar casa.

As tempestades perfeitas formam-se pela conjugação de vários fatores. A nossa foi-se formando durante décadas: um país de proprietários, uma oferta pública reduzida para a classe média, uma construção interrompida, uma procura crescente e salários que não acompanharam os preços.

E chegámos aqui.

E é preciso reconstruir a casa. E, desta vez, garantir que há lugarpara todos.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias