Opinião | 05-11-2026 07:00

Tão bom ter uma casa e um quintal

Tão bom ter uma casa e um quintal

Este texto tem muito de saudosista, mas saudades não violentam consciências. É evidente que hoje há muita gente a comer dos caixotes do lixo, a viver de empréstimos do banco ou de empresas manhosas de crédito, mas já ninguém vai ao rabisco para sobreviver.

Sou do tempo em que o primeiro dinheiro que se juntava era com o objectivo de comprar casa própria. No entanto, a minha primeira casa de família, quando saí da casa dos meus pais, foi a casa dos meus sogros, no Bairro 1.º de Maio, que era na altura as casas dos mais pobres dos pobres. Vivi lá uns meses, e saí para uma casa arrendada na chamada “rua do Vale”, pagando uma mensalidade igual à do meu ordenado da altura como escriturário. Até chegar à casa que comprei, e onde vivi grande parte da minha vida, pouco há para contar. Talvez o mais importante seja deixar escrito que sempre tive medo de uma doença que me obrigasse a entregar a casa ao banco, onde fui buscar todo o dinheiro para realizar a compra, mais algum para as obras de recuperação.
Este último fim-de-semana, nas minhas voltas de moto por Lisboa, voltei a perceber que o Rossio está por conta de quem protesta contra as políticas da habitação dos governos das últimas décadas. Não é junto do Palácio de Belém, nem da casa do primeiro-ministro, é no centro da cidade das sete colinas, dificultando a vida dos cidadãos, incluindo os milhões de turistas que fogem a sete pés destes ajuntamentos. Os protestos até podem ser justos, mas da forma como são feitos só confirmam que neste último meio século os políticos e os cidadãos nunca estiveram de mãos dadas.
Salto de Lisboa para o meio da Lezíria ribatejana e fico rendido ao brilho que o sol faz sair de cerca de uma centena de videiras que, nesta altura do ano, ainda estão carregadas de cachos de uvas. A grande maioria já está podre, mas ainda há cachos de uva dourada a meter-se pelos olhos dentro. Cerca de uma dúzia de anos antes de ir morar para o bairro das casas do povo, saía de manhã cedo de uma casa na chamada “rua da Formiga”, com a minha avó Ilda, para irmos ao rabisco das uvas, depois da azeitona, e neste meio tempo do milho. Lembro-me que o rabisco das uvas dava três quartões de vinho por ano. E o das azeitonas cerca de três garrafões de cinco litros de azeite; o milho era todo para as galinhas poedeiras lá de casa que, às vezes, morriam de velhas.
Enquanto escrevo este texto revejo no telemóvel as fotos das cepas carregadas de uvas que nunca serão apanhadas, e pergunto-me como podemos evoluir tanto para deixarmos estragar outro tanto, seja na vinha, no olival, no pomar ou na terra. O mesmo com o rabisco da cortiça. Lembro-me de carregar sacos de ráfia cheios de bocados de cortiça apanhada na charneca para as duas fábricas que na altura existiam na Chamusca. E de receber em mão esse dinheiro que nem faço ideia que valor tinha na altura, embora admita que era muito pouco, mas que ajudava bastante no orçamento familiar. Hoje basta dar uma volta pela charneca para perceber as diferenças.
Este texto tem muito de saudosista, mas saudades não violentam consciências. É evidente que hoje há muita gente a comer dos caixotes do lixo, a viver de empréstimos do banco ou de empresas manhosas de crédito, etc etc, mas já ninguém vai ao rabisco para sobreviver. Dantes as pessoas morriam mesmo de fome ou da falta de assistência médica, porque a política do regime não perdoava. Passaram mais de cinquenta anos do 25 de Abril e os problemas essenciais não se resolveram. Não é por falta de políticas democratas, nem da possibilidade que todos temos de escolher quem melhor nos pode governar. Também não é porque hoje existe uma instituição chamada Segurança Social, ou outra denominada Instituto de Emprego e Formação Profissional. Uma coisa é certa: estamos muito longe do tempo em que saíamos de casa para irmos ao rabisco, mas ainda muito perto, talvez perto demais, dos tempos em que os políticos do antigo regime nos metiam Lisboa pelos olhos dentro. JAE.

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