Política | 30-01-2026 12:00

João Moura: negócios e polémicas num percurso sob escrutínio

João Moura: negócios e polémicas num percurso sob escrutínio
João Moura - foto arquivo O MIRANTE

O nome de João Moura deixou há muito de surgir nas notícias apenas associado à actividade política. Deputado, dirigente partidário e autarca, o percurso público do político de Ourém tem sido marcado por uma sucessão de polémicas, conflitos e investigações que o colocam repetidamente no centro do debate público. Entre suspeitas, processos, críticas internas e justificações públicas, João Moura é actualmente o político mais controverso da região.

João Moura, deputado do PSD eleito pelo círculo de Santarém e actual secretário de Estado da Agricultura, tem sido uma presença recorrente na comunicação social, nomeadamente em O MIRANTE, tanto pela sua actividade política como pelas várias polémicas que têm marcado o seu percurso público e empresarial. Com um trajecto político ligado ao PSD distrital de Santarém, João Moura exerceu funções de liderança partidária e preside há vários anos a Assembleia Municipal de Ourém, cargos a partir dos quais ganhou projecção regional. Ao longo dos anos, a sua actuação tem sido alvo de escrutínio e críticas por parte de opositores políticos e da sociedade civil, que lhe apontam um estilo de liderança considerado centralizador e uma prática política associada a redes de influência nos órgãos autárquicos.
Um dos primeiros episódios de maior impacto, noticiado pelo nosso jornal, ocorreu no plano parlamentar, quando João Moura perdeu a confiança da direcção do grupo parlamentar do PSD, tendo sido afastado dos pelouros financeiro e de recursos humanos da bancada na Assembleia da República. A decisão, comunicada pelo então presidente do grupo parlamentar, foi interpretada como sinal de tensão interna e de reservas quanto à sua condução dessas áreas sensíveis.
No ano passado, mais uma polémica: o nome do secretário de Estado voltou a ganhar destaque mediático na sequência de notícias que davam conta de investigações em curso por parte da Polícia Judiciária. De acordo com informações divulgadas, João Moura estaria a ser investigado no âmbito de suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais, relacionadas com a actividade das suas empresas e com a aquisição de um imóvel de elevado valor na Golegã, avaliado em cerca de dois milhões de euros. As mesmas notícias referiam a existência de obras de grande dimensão cujo enquadramento fiscal e administrativo estaria a ser analisado pelas autoridades.
Paralelamente ao percurso político, João Moura desenvolveu actividade empresarial ao longo de vários anos, com interesses em diferentes sociedades, algumas delas fora de Portugal. Recorde-se que, tal como noticiou O MIRANTE na altura, o deputado manteve investimentos em África, em parceria com outros empresários e figuras políticas, incluindo um conhecido autarca socialista do concelho de Ourém, António Gameiro, que também tem um longo historial com a Justiça. Estas ligações empresariais suscitaram questões públicas sobre a separação entre interesses privados e o exercício de funções políticas.
Também no ano passado, foi tornado público que o secretário de Estado enfrentava uma queixa-crime relacionada com alegados comportamentos impróprios numa reunião de trabalho com uma dirigente da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Segundo informações apuradas pelo nosso jornal, a reunião terá sido gravada e anexada ao processo. João Moura rejeitou qualquer acusação de agressão, afirmando que apenas confrontou os serviços com falhas operacionais numa plataforma digital e contestando a legalidade da gravação, realizada sem o seu consentimento. Perante a sucessão de notícias e suspeitas, João Moura reagiu publicamente em Setembro de 2025, numa intervenção na Assembleia Municipal de Ourém, onde adoptou um discurso de defesa pessoal. O governante acusou a comunicação social de promover “juízos de valor” e de dar eco a “cartas anónimas repugnantes”, apresentando-se como alvo de uma campanha.

À margem/opinião

Ourém é um “paraíso” de suspeitas

Os casos que envolvem João Moura podem ser considerados uma gota no oceano no que diz respeito às suspeitas que têm existido nos últimos anos na política local em Ourém. Várias figuras da política local surgiram associadas a processos judiciais que ajudam a desenhar um retrato preocupante da relação entre poder e ética naquele concelho.
Um dos casos mais recentes a ganhar dimensão pública envolveu António Gameiro, antigo deputado do Partido Socialista e uma das figuras mais influentes da política oureense nas últimas décadas. A sua constituição como arguido na Operação Mais-Valia, relacionada com a venda da antiga sede da Federação Portuguesa de Futebol, voltou a colocar Ourém no centro de uma investigação de âmbito nacional. Não se trata de um episódio isolado: o seu percurso político tem sido intercalado por processos judiciais, buscas e suspensões de funções.
Também o ex-presidente da Câmara Municipal de Ourém, Paulo Fonseca, que foi igualmente Governador Civil, tem um historial judicial que dá pano para mangas. A sua situação de insolvência pessoal, discutida ao longo de vários anos nos tribunais, deu origem a pedidos de perda de mandato e levantou dúvidas sobre a compatibilidade entre liderança autárquica e fragilidade financeira grave. Ainda que a justiça não tenha determinado o seu afastamento definitivo, o caso contribuiu para um clima de permanente contestação e desgaste institucional, levando-o a perder as eleições em 2017 para Luís Albuquerque.
O caso mais simbólico de que a justiça não se limita a investigar, mas também a condenar, é o de Nazareno do Carmo, antigo vice-presidente da Câmara Municipal de Ourém. Condenado a pena de prisão com suspensão e à perda de mandato por crimes cometidos no exercício de funções, o caso tornou-se também num marco negativo na história política do concelho. A este quadro somam-se ainda os processos envolvendo o executivo da Junta de Freguesia de Fátima de um mandato anterior, que noticiamos recentemente, com todos os autarcas constituídos arguidos por suspeitas de peculato, num caso relacionado com a gestão da Casa Mortuária.

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